O governo federal já começou
a fazer o esboço do decreto que vai regulamentar o
fundo garantidor destinado aos projetos de Parcerias Público-Privadas,
disse hoje (31/3) o secretário-adjunto do Tesouro Nacional,
Tarcísio Godoy, em palestra no seminário Debate
Nacional sobre PPPs, promovido pelo jornal Valor Econômico
e a Amcham . Segundo ele, os ministérios da Fazenda
e do Planejamento e a Casa Civil analisam as regras de operação
do fundo com a Comissão de Valores Mobiliários
(CVM). O texto final será definido após a aprovação
do projeto de lei das PPPs, que está no Senado. Godoy
disse que o fundo será composto por ações
de estatais e imóveis e o valor vai depender da carteira
de parcerias público-privadas.
“Queremos um fundo que tenha liquidez
e fluxo de entrada, aportes de recursos do governo”,
afirmou Godoy. A oferta de garantias aos investidores é
uma das principais condições para o sucesso
das parcerias, na opinião dos representantes da iniciativa
privada que participaram do seminário. Mas o mais importante,
segundo eles, é a definição de um marco
regulatório claro, com regras de longo prazo, que assegure
o cumprimento de contratos a despeito de mudanças políticas.
“As garantias fiscais são necessárias,
mas o sonho da iniciativa privada é ter garantias regulatórias”,
afirmou Claudio Diniz Júnior, do Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
Em relação ao projeto de lei,
o vice-presidente do Sindicato da Indústria da Construção
Civil (Sinduscon), Luiz Antônio Messias, mostrou-se
preocupado com o que considera uma brecha que pode desvirtuar
o modelo. O projeto de lei das PPPs refere-se somente a obras
públicas, e não menciona prestação
de serviços. Segundo Messias, isso pode fazer com que
as empresas com interesse apenas em determinada obra deixem
de recorrer à Lei de Licitações, criada
para esse fim. Para ele, é fundamental que a prestação
de serviços seja acrescentada ao texto. “No Brasil,
o que não é proibido expressamente na lei é
interpretado como permitido”.
O vice-presidente do Sinduscon também
criticou a exigência para que o setor privado apresente
garantias maiores que as previstas na Lei de Licitações,
com o objetivo de assegurar que as obras serão concluídas.
“Como o governo só vai pagar depois que a obra
estiver pronta, só poderão participar as empresas
de maior porte, que têm cacife para oferecer essas garantias”,
disse.
Reduzir
gastos do governo
Para o diretor de Desenvolvimento da Andrade
Gutierrez, Ricardo Castanheira, a questão da carga
tributária precisa entrar na pauta das discussões
sobre o texto. “O governo não paga impostos.
O setor privado, que vai substituir o governo na prestação
de serviços, paga. É um diferencial que precisa
ser considerado”, afirmou. O padrão de contabilidade
do governo também é diferente, porque os custos
não levam em conta insumos que entram nas contas de
empresas privadas.
Ele ressaltou que o reduzido investimento
do Brasil em infra-estrutura – US$ 10 bilhões
nos últimos dez anos, a preços atuais –
criou uma necessidade de investimento de US$ 20 bilhões
ao ano. Para amenizar esta situação, Castanheira
defendeu que, além das PPPs, o governo federal retome
os programas de concessões e defina um planejamento
rigoroso de redução de gastos correntes. “Sempre
que for possível fazer concessão, ela deve ser
feita. As PPPs vão completar o que as concessões
não puderem atender”, disse Paulo Dal Fabbro,
da PricewaterhouseCoopers Brasil.