Publicação da Gazeta Mercantil de 22 de junho de 2004

Retomada ainda não é suficiente para motivar empresários a investir

Três trimestres consecutivos de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB); reação do poder de compra do consumidor, após 12 meses de declínio; juro no menor patamar em 3 anos; 6,1% de expansão da indústria entre janeiro e abril são uma combinação suficiente para patrocinar uma retomada dos projetos de investimentos que estavam engavetados? "O crescimento de 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB) para 2004 está dado", disse o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horacio Lafer Piva, referindo-se à meta fixada pelo governo para o ano. No primeiro escalão do governo, há duas semanas, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, teria garantido aos demais ministros que o crescimento será ainda maior. Se essa expectativa se confirmar, O PIB terá o melhor resultado anual desde 2000, quando a economia teve uma expansão de 4,2%. Então, qual é o problema? Uma possível explicação é que esses números já não soam como o canto da sereia. "Depois de três anos de crescimento quase nulo, o mínimo que se poderia esperar era uma expansão maior", disse Paulo Cândido de Oliveira, diretor executivo da Associação Brasileira de Bancos Comerciais (ABBC), entidade que reúne instituições financeiras fortemente ligadas à indústria e ao comércio. O crescimento de 6,1% da produção industrial no primeiro quadrimestre de 2004, poderia servir de lastro para avaliações de que, a despeito da choradeira habitual dos empresários, a recuperação está em marcha, e, além disso, a capacidade instalada da indústria é superior a 80% desde dezembro do ano passado, segundo o coordenador de política econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco, que disse ter alertado que novas inversões na indústria mais pesada precisam ser desengavetadas para que a produção possa ser expandida. Os números conjunturais ainda continuam ocultando a grande diferença de comportamento entre os setores ligados à exportação dos que dependem prioritariamente do mercado doméstico. Com um crescimento de 57% das vendas externas, as montadoras de veículos aumentaram a produção em 12% entre janeiro e abril. No mesmo ritmo, a indústria de máquinas e equipamentos teve um crescimento de 19,3% do faturamento, catalisado por um acréscimo de 32% dos embarques. As exportações do agronegócio cresceram 28% entre janeiro e maio e a receita em dólar do complexo siderúrgico subiu 18,7% no primeiro quadrimestre. "As coisas estão acontecendo no complexo exportador. Para os demais setores, a previsão de investimentos é a mesma do final do ano passado", disse Piva. Se a economia dá sinais de retomada, por que então o empresário ainda se mostra reticente quanto aos planos de investimentos? "Porque o crescimento, como diz o deputado Delfim Neto, é um estado de espírito, e o empresário ainda não absorveu isso", disse o diretor executivo da Associação Brasileira de Bancos Comerciais (ABBC), Paulo Cândido de Oliveira. Talvez não chegue a tanto. Ao menos para aqueles que têm conseguido compensar, mesmo que parcialmente, a ainda combalida demanda interna com exportações. Foi isso que catalisou o crescimento de 16,2% importações nos primeiros quatro meses de 2004. Para o diretor-executivo do Instituto de Estudos para Desenvolvimento Industrial (Iedi), Júlio Sérgio Gomes de Almeida, o grosso dos novos investimentos é dirigido para a modernização do parque visando atender ao nível de exigências dos clientes, outra conseqüência da internacionalização das empresas. Isso é o que, segundo ele, ajuda a explicar o fato de o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP) ter revisto a estimativa de crescimento no ano, de 4,5% para 3,7%. "Não há investimentos em aumento da planta fabril", disse Almeida. Nessa mesma linha, na semana passada, o presidente da Associação Brasileira da Infra-estrutura e Indústrias de Base (Abdib), José Augusto Marques, havia anunciado a revisão para baixo os investimentos do setor em 2004, de US$ 10,1 bilhões para US$ 8 bilhões. Essas reversões são especialmente preocupantes, se levar em conta em que vêm de setores fortemente relacionados à formação bruta de capital fixo, um dos medidores da sustentabilidade do crescimento da economia de um país. As questões que envolvem ética se tornam cada vez mais importantes no mercado de capitais, sob um debate que agora é público, afirmou o presidente da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), Alfredo Setubal. Por sua vez, Mauro Cunha, diretor de investimentos do Bradesco Templeton - empresa especializada na gestão de fundos de governança corporativa - ressaltou que o procedimento ético está acima dos códigos e permeia todas as atividades do gestor de recursos. "A tendência é resolver o desafio de navegar entre nossa tradição legal e as melhores práticas do exterior", disse. Para Cunha, o futuro aponta para a necessidade cada vez maior da prestação de contas. No caso da Bradesco Templeton, por exemplo, a troca de informações entre a gestora e cotistas dos fundos conta com um comitê de investimento trimestral e mais um relatório bimestral. "Mas não acho que todos os gestores têm de ter a mesma política de informação. Isso não pode ser generalizado", afirmou. Segundo Cunha, a participação da empresa nos conselhos fiscais das companhias nas quais tem participação, dentre elas, Randon, Bunge Brasil, Telesp e Perdigão, é feita por meio de candidatos independentes, com histórico profissional e disponibilidade de tempo. "Prezamos pelo comprometimento com a governança. Mas aqui não falo de bravata de minoritário, mas de todos os acionistas", afirmou. "Cerca de 90% dos casos que temos são de colaboração. O conflito é a falência da governança corporativa", disse.

Demora nas PPPs é agravante

A demora do governo na aprovação dos projetos de Parcerias Público-Privadas (PPPs) e dos mercados regulatórios é uma das principais justificativas dos empresários para a falta de apetite por novos investimentos. Para o presidente da Associação Brasileira da Infra-estrutura e Indústrias de Base (Abdib), José Augusto Marques, o que mais desestimula novos projetos é a demora dos marcos regulatórios. "A indefinição sobre a remoção dos principais entraves que impedem o investimento já contaminaram os números previstos", disse. Essa apatia coloca em risco o crescimento sustentado, do qual o governo tanto fala. Segundo economistas, para a economia se expandir consistentemente, é preciso que se aplique o equivalente a algo entre 20% e 25% do PIB em investimentos de infra-estrutura. No mês passado, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) previu que a taxa de investimento fixo deve crescer 6,2% neste ano, após as quedas de 6,6%, em 2002, e de 4,2%, em 2003. Ainda assim essa relação subiria dos 17,1%, do ano passado, para 18,7% em 2004. No melhor das hipóteses. A partir do anúncio da Abdib, uma das saídas para recuperar o otimismo empresarial seria a aprovação do projeto de lei que institui as Parcerias Público-Privadas (PPPs). Na semana passada, a apreciação do texto pelo Senado foi novamente adiada. Ao contrário do setor privado, que quer pressa, os parlamentares acharam que o projeto ainda não foi discutido o suficiente e pretendem fazer mais uma audiência pública sobre o tema. "Esse é um assunto que exige urgência", disse o diretor-executivo do Instituto de Estudos para Desenvolvimento Industrial (Iedi), Julio Sergio de Almeida. O investimento socialmente responsável (SRI, na sigla em inglês) é uma tendência global que começa a apresentar resultados financeiros, defendeu o gestor de renda variável do ABN Amro Real, Pedro Villani. Uma das evidências desse movimento, segundo o executivo, é o crescimento de 240% do patrimônio global dos fundos SRI, para US$ 2,1 trilhões, entre 1995 e 2003. No mesmo período, a indústria cresceu 174% em seu conjunto.

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