Retomada ainda não é suficiente para motivar empresários a investir
Três
trimestres consecutivos de crescimento do Produto Interno
Bruto (PIB); reação do poder de compra do consumidor,
após 12 meses de declínio; juro no menor patamar
em 3 anos; 6,1% de expansão da indústria entre
janeiro e abril são uma combinação suficiente
para patrocinar uma retomada dos projetos de investimentos
que estavam engavetados? "O crescimento de 3,5% do Produto
Interno Bruto (PIB) para 2004 está dado", disse
o presidente da Federação das Indústrias
do Estado de São Paulo (Fiesp), Horacio Lafer Piva,
referindo-se à meta fixada pelo governo para o ano.
No primeiro escalão do governo, há duas semanas,
o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, teria garantido aos
demais ministros que o crescimento será ainda maior.
Se essa expectativa se confirmar, O PIB terá o melhor
resultado anual desde 2000, quando a economia teve uma expansão
de 4,2%. Então, qual é o problema? Uma possível
explicação é que esses números
já não soam como o canto da sereia. "Depois
de três anos de crescimento quase nulo, o mínimo
que se poderia esperar era uma expansão maior",
disse Paulo Cândido de Oliveira, diretor executivo da
Associação Brasileira de Bancos Comerciais (ABBC),
entidade que reúne instituições financeiras
fortemente ligadas à indústria e ao comércio.
O crescimento de 6,1% da produção industrial
no primeiro quadrimestre de 2004, poderia servir de lastro
para avaliações de que, a despeito da choradeira
habitual dos empresários, a recuperação
está em marcha, e, além disso, a capacidade
instalada da indústria é superior a 80% desde
dezembro do ano passado, segundo o coordenador de política
econômica da Confederação Nacional da
Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco, que
disse ter alertado que novas inversões na indústria
mais pesada precisam ser desengavetadas para que a produção
possa ser expandida. Os números conjunturais ainda
continuam ocultando a grande diferença de comportamento
entre os setores ligados à exportação
dos que dependem prioritariamente do mercado doméstico.
Com um crescimento de 57% das vendas externas, as montadoras
de veículos aumentaram a produção em
12% entre janeiro e abril. No mesmo ritmo, a indústria
de máquinas e equipamentos teve um crescimento de 19,3%
do faturamento, catalisado por um acréscimo de 32%
dos embarques. As exportações do agronegócio
cresceram 28% entre janeiro e maio e a receita em dólar
do complexo siderúrgico subiu 18,7% no primeiro quadrimestre.
"As coisas estão acontecendo no complexo exportador.
Para os demais setores, a previsão de investimentos
é a mesma do final do ano passado", disse Piva.
Se a economia dá sinais de retomada, por que então
o empresário ainda se mostra reticente quanto aos planos
de investimentos? "Porque o crescimento, como diz o deputado
Delfim Neto, é um estado de espírito, e o empresário
ainda não absorveu isso", disse o diretor executivo
da Associação Brasileira de Bancos Comerciais
(ABBC), Paulo Cândido de Oliveira. Talvez não
chegue a tanto. Ao menos para aqueles que têm conseguido
compensar, mesmo que parcialmente, a ainda combalida demanda
interna com exportações. Foi isso que catalisou
o crescimento de 16,2% importações nos primeiros
quatro meses de 2004. Para o diretor-executivo do Instituto
de Estudos para Desenvolvimento Industrial (Iedi), Júlio
Sérgio Gomes de Almeida, o grosso dos novos investimentos
é dirigido para a modernização do parque
visando atender ao nível de exigências dos clientes,
outra conseqüência da internacionalização
das empresas. Isso é o que, segundo ele, ajuda a explicar
o fato de o Sindicato da Indústria da Construção
Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP) ter revisto
a estimativa de crescimento no ano, de 4,5% para 3,7%. "Não
há investimentos em aumento da planta fabril",
disse Almeida. Nessa mesma linha, na semana passada, o presidente
da Associação Brasileira da Infra-estrutura
e Indústrias de Base (Abdib), José Augusto Marques,
havia anunciado a revisão para baixo os investimentos
do setor em 2004, de US$ 10,1 bilhões para US$ 8 bilhões.
Essas reversões são especialmente preocupantes,
se levar em conta em que vêm de setores fortemente relacionados
à formação bruta de capital fixo, um
dos medidores da sustentabilidade do crescimento da economia
de um país. As questões que envolvem ética
se tornam cada vez mais importantes no mercado de capitais,
sob um debate que agora é público, afirmou o
presidente da Associação Nacional dos Bancos
de Investimento (Anbid), Alfredo Setubal. Por sua vez, Mauro
Cunha, diretor de investimentos do Bradesco Templeton - empresa
especializada na gestão de fundos de governança
corporativa - ressaltou que o procedimento ético está
acima dos códigos e permeia todas as atividades do
gestor de recursos. "A tendência é resolver
o desafio de navegar entre nossa tradição legal
e as melhores práticas do exterior", disse. Para
Cunha, o futuro aponta para a necessidade cada vez maior da
prestação de contas. No caso da Bradesco Templeton,
por exemplo, a troca de informações entre a
gestora e cotistas dos fundos conta com um comitê de
investimento trimestral e mais um relatório bimestral.
"Mas não acho que todos os gestores têm
de ter a mesma política de informação.
Isso não pode ser generalizado", afirmou. Segundo
Cunha, a participação da empresa nos conselhos
fiscais das companhias nas quais tem participação,
dentre elas, Randon, Bunge Brasil, Telesp e Perdigão,
é feita por meio de candidatos independentes, com histórico
profissional e disponibilidade de tempo. "Prezamos pelo
comprometimento com a governança. Mas aqui não
falo de bravata de minoritário, mas de todos os acionistas",
afirmou. "Cerca de 90% dos casos que temos são
de colaboração. O conflito é a falência
da governança corporativa", disse.
Demora nas PPPs é agravante
A demora do governo na aprovação dos projetos
de Parcerias Público-Privadas (PPPs) e dos mercados
regulatórios é uma das principais justificativas
dos empresários para a falta de apetite por novos investimentos.
Para o presidente da Associação Brasileira da
Infra-estrutura e Indústrias de Base (Abdib), José
Augusto Marques, o que mais desestimula novos projetos é
a demora dos marcos regulatórios. "A indefinição
sobre a remoção dos principais entraves que
impedem o investimento já contaminaram os números
previstos", disse. Essa apatia coloca em risco o crescimento
sustentado, do qual o governo tanto fala. Segundo economistas,
para a economia se expandir consistentemente, é preciso
que se aplique o equivalente a algo entre 20% e 25% do PIB
em investimentos de infra-estrutura. No mês passado,
o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) previu
que a taxa de investimento fixo deve crescer 6,2% neste ano,
após as quedas de 6,6%, em 2002, e de 4,2%, em 2003.
Ainda assim essa relação subiria dos 17,1%,
do ano passado, para 18,7% em 2004. No melhor das hipóteses.
A partir do anúncio da Abdib, uma das saídas
para recuperar o otimismo empresarial seria a aprovação
do projeto de lei que institui as Parcerias Público-Privadas
(PPPs). Na semana passada, a apreciação do texto
pelo Senado foi novamente adiada. Ao contrário do setor
privado, que quer pressa, os parlamentares acharam que o projeto
ainda não foi discutido o suficiente e pretendem fazer
mais uma audiência pública sobre o tema. "Esse
é um assunto que exige urgência", disse
o diretor-executivo do Instituto de Estudos para Desenvolvimento
Industrial (Iedi), Julio Sergio de Almeida. O investimento
socialmente responsável (SRI, na sigla em inglês)
é uma tendência global que começa a apresentar
resultados financeiros, defendeu o gestor de renda variável
do ABN Amro Real, Pedro Villani. Uma das evidências
desse movimento, segundo o executivo, é o crescimento
de 240% do patrimônio global dos fundos SRI, para US$
2,1 trilhões, entre 1995 e 2003. No mesmo período,
a indústria cresceu 174% em seu conjunto.
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