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Publicação do O Estado de São Paulo de 18 de outubro de 2003

Projetos começam a sair da gaveta

De posse das bases propostas pelo governo para as Parcerias Público-Privadas (PPP), as empresas começam a tirar da gaveta projetos que haviam sido condenados ainda no papel, porque os estudos preliminares sugeriam que o retorno financeiro não cobriria os investimentos exigidos. O novo mecanismo vai permitir que o governo aporte recursos para garantir a viabilidade econômica das iniciativas. É o caso de planos, já cogitados e abandonados, de construção e administração de hospitais e presídios, além de trechos de estradas e ferrovias, entre muitos outros.

O presidente da Companhia de Concessões Rodoviárias (CCR), Renato Vale, conta que a empresa chegou a estudar a viabilidade de projetos como o do Anel Rodoviário do Rio de Janeiro e a duplicação da BR-101 no trecho entre Natal e Salvador. "Mas percebemos que não valeria a pena fazer as obras só pela cobrança de tarifas", explica. Tendo o governo como parceiro, diz o executivo, o empreendimento pode se tornar rentável. A CCR é a dona das concessionárias Nova Dutra, AutoBan, Ponte S.A. e Via Lagos.

Vale lembrar que, além dos 12 mil quilômetros de rodovias já entregues à administração privada, o governo estima que outros 15 mil podem ser licitados. "Na forma de PPP, é possível pensar em número ainda maior de trechos", diz Vale, ressalvando que o mecanismo não poderá ser aplicado a todo e qualquer trecho.

De acordo com Irineu Meirelles, vice-presidente da Ecorodovias, holding que inclui as concessionárias Ecovias, Ecovia e Ecosul, a tendência é de que o governo entregue à iniciativa privada a maioria dos grandes projetos do setor de infra-estrutura. E acrescenta que a possibilidade de parcerias com o governo permite à empresa pensar em projetos que vão além das estradas, como os da área aeroportuária. "Mas as PPP precisam ser mais detalhadas, principalmente no que diz respeito às garantias de retorno do investimento e à segurança de que as regras não serão modificadas no meio do jogo."

Meirelles se arrisca a dizer que, embora não esteja na área de atuação da empresa, o critério de privatização das penitenciárias é bastante interessante e merece ser acompanhado de perto. Para o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), Arthur Quaresma Filho, "a construção de presídios pela iniciativa privada é possível e é viável. Só precisamos aprofundar os estudos".

Segundo Quaresma Filho, há vários exemplos de empresas que antes focavam seus negócios na execução de obras públicas e migraram para o sistema de concessão. Agora, essas mesmas empresas estudam a possibilidade de explorar a gestão de serviços nas áreas de segurança e saúde pública. Ele conta que, no Estado de São Paulo, há casos bem-sucedidos de parcerias na área social, como o Seconci, um centro de saúde voltado para o trabalhador da construção civil, que é administrado pelo Sinduscon e pelo governo, e foi aberto ao público em geral.

Lista - O governo paulista já tem uma lista de projetos que podem ser tocados em PPP. Entre eles, estão os 12,8 quilômetros da linha 4 do Metrô, o Expresso Aeroporto, ligação ferroviária do centro de São Paulo até o terminal aéreo de Guarulhos, o Porto de São Sebastião, o Rodoanel e o Ferroanel.
O presidente da Associação Paulista de Empresários de Obras Públicas (Apeop), Carlos Eduardo Lima Jorge, cita outra área que poderia ser contemplada pela lei das PPPs: a habitacional.
"No caso de um grande conjunto de moradias, a empresa ou consórcio que ganhar a licitação vai arcar sozinho com os custos da obra, enquanto o governo só começará a pagar pelo serviço depois que as unidades começarem a ser habitadas, numa espécie de leasing", explica.

Jorge afirma que os mecanismos de garantias previstos no anteprojeto das PPP podem facilitar a redução da taxa de risco cobrada nos contratos.

Ele também acredita que o sistema facilitará o acesso de grupos privados a linhas de crédito oferecidas por organismos multilaterais, que dão preferência para os financiamentos concedidos diretamente aos governos.
"O presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) afirmou textualmente que a instituição tem programas específicos para os projetos feitos em parceria com o governo", comenta.
Experiência - Grandes empreiteiras brasileiras já têm experiência internacional em PPP. A Odebrecht, por exemplo, é dona de 13% do consórcio que administra, em parceria com o governo de Portugal, a maior ponte européia: a Ponte Vasco da Gama, sobre o Rio Tejo.

A cobrança de pedágio responde por cerca de 50% da receita do empreendimento, enquanto o restante é coberto pelo governo português.

A Andrade Gutierrez é responsável pela gestão de uma rodovia na Ilha da Madeira, em que o poder público cobre 100% da receita. É o chamado "pedágio sombra", termo criado na Inglaterra para as taxas pagas pelo governo com base nas estimativas de fluxo nas rodovias. No Brasil, a construtora está otimista com o anteprojeto de lei. "Temos várias coisas em mente nas áreas de segurança, saúde e transporte", diz o diretor de Planejamento da empresa, Ricardo Castanheira, que acredita que a lei será aprovada até o final deste ano.

"Com isso, teremos 12 meses para aprimorar nossas habilidades com o novo mecanismo. Serão criadas muitas parcerias, até entre grupos privados", prevê o executivo. "O governo fez um bom trabalho. Agora, temos a responsabilidade de criar um ambiente adequado para o sistema, desenvolver projetos e sugerir formas de garantia."

Para Castanheira, vários projetos estarão em andamento quando a lei for aprovada. "Não vamos cruzar os braços. Vamos ajudar."

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