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Publicação do DCI de 06 de
junho de 2006
Fundo de garantia divide construção
Carlos Matos
A idéia de aplicar recursos do Fundo de Garantia
do Tempo de Serviços (FGTS) em obras viárias
e ferroviárias toma corpo e ganha defensores no governo
federal e começa a gerar discórdias entre
as construtoras voltadas à área habitacional
e as empreiteiras interessadas em obras de infra-estrutura
e em parcerias público-privadas (PPPs).
O presidente do Sindicato da Indústria da Construção
Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), João
Cláudio Robusti, questionou a utilização
do fundo para tais aplicações. “Vão
tirar recursos do FGTS, que por lei só podem ser
direcionados a financiar habitação, saneamento
e infra-estrutura de transportes urbana, e vão destiná-los
a obras ferroviárias e rodoviárias, as quais
deveriam ser financiadas com os recursos da Contribuição
de Intervenção de Domínio Econômico
(Cide), que foi justamente criada para essa finalidade”,
comenta o executivo. Segundo ele, desde 2002 a Cide já
arrecadou R$ 34 bilhões, sendo que, desse total,
foram repassados R$ 3,09 bilhões para estados e municípios
e aplicados R$ 12,48 bilhões pela União. Portanto,
permanecem nos cofres públicos cerca de R$ 19,3 bilhões.
“Por que não dispor dessa verba e preservar
R$ 20 bilhões do FGTS ?”, questiona Robusti.
Robusti sustenta que o Conselho Curador do FGTS está
obrigado a aplicar os recursos exclusivamente em habitação
de interesse social, saneamento e infra-estrutura urbana,
tendo por base o artigo 9º da Lei 8.036 de 1990. O
parágrafo quarto do mesmo artigo ainda enuncia que
“os projetos de saneamento básico e infra-estrutura
urbana, financiados com recursos do FGTS, deverão
ser complementares aos programas habitacionais”.
De acordo com o consultor jurídico da entidade, Renato
Romano, ao mesmo tempo em que a Lei atribui competência
do conselho gestor do Fundo, limita a aplicação
dos recursos. “Certamente nós vamos ter uma
discussão acirrada nisso”, afirma. Romano diz
que, exceto por uma modificação na Lei, não
parece possível a aplicação dos recursos
do FGTS em obras infra-estruturais. A própria Lei
8.036/90, segundo ele, diz que o programa de aplicações
deve destinar pelo menos 60% dos recursos para a área
de habitação popular e que as obras de saneamento
e infra-estrutura urbana devem ser complementares aos programas
habitacionais.
O desvio de finalidade nesses recursos pode causar situação
semelhante à ocorrida na “Operação
Tapa-Buraco” do governo federal. “Algumas constatações
feitas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) mostram
que apenas 7% ou 8% das obras haviam obedecido as normas
de contratação”. O restante, segundo
Romano, poderia ter sido contratado por intermédio
de licitações e não de forma emergencial.
“Também não havia necessidade de verba
suplementar. Os recursos poderiam ser provenientes inclusive
da própria Cide”. Especialistas no segmento
de infra-estrutura, no entanto, sustentam que o uso desses
recursos em obras infra-estruturais, inclusive em PPPs,
só depende de determinação do Conselho
Curador do Fundo, dispensando qualquer modificação
no conteúdo da Lei 8.036/90.
Rubens Teixeira Alves, diretor da área de PPPs do
Albino Advogados , diz que para a utilização
dos recursos do Fundo em obras infra-estruturais não
há necessidade de alteração na Lei,
apenas aprovação de regulamentos e diretrizes
no Conselho Curador do FGTS. Na prática, segundo
ele, a Caixa Econômica Federal (CEF) já financia
concessionárias de rodovias com recursos provenientes
não apenas do FGTS, mas também do Fundo de
Amparo ao Trabalhador (FAT). “Além disso, há
recursos sobrando tanto na área de habitação
quanto nas áreas de saneamento e infra-estrutura”.
Ele explica que o acúmulo desses recursos se deve
muito mais à ausência de projetos que preencham
os requisitos preestabelecidos do que propriamente à
falta de acesso. A única forma de impedir a alocação
desses recursos para a utilização em obras
rodoviárias e ferroviárias, na visão
de Teixeira, seria o Sinduscon-SP e demais entidades contrárias
ao seu uso convencerem o conselho gestor do Fundo a não
aprovar os referentes regulamentos, possibilidade que ele
considera difícil de ocorrer, uma vez que o conselho
é, em grande parte, formado por representantes ministeriais.
Robusti, do Sinduscon-SP, considera que, caso rodovias e
ferrovias sejam financiadas com recursos do FGTS, haverá
prejuízos na alocação de recursos para
redução do déficit habitacional. “Desse
jeito, para tapar um buraco no transporte intermunicipal,
vão criar outro na habitação e no saneamento!
Se o governo alega que não consegue gastar todos
os recursos do FGTS para financiar a habitação,
deveria facilitar ainda mais o acesso da população
de baixa renda a esses financiamentos.
Com isso, rapidamente os R$ 20 bilhões serviriam
para diminuir o déficit habitacional do País,
que já está em 7,9 milhões de moradias”,
comenta. Apesar de discordar da posição, o
Sinduscon-SP não pretende, ao menos inicialmente,
entrar em âmbito judicial. A entidade possui representação
no Conselho Curador do FGTS e irá se posicionar contra
a aprovação de medidas que viabilizem o financiamento
de obras viárias ou ferroviárias.
Odebrecht abre caminho
Enquanto o Sinduscon-SP inicia seus protestos contra a alocação
de recursos do Fundo para obras infra-estruturais, a primeira
PPP do País, na área de saneamento, já
será financiada com recursos do FGTS. Três
consórcios disputam a construção, operação
e manutenção do emissário submarino
de Jaguaribe, que será implantado em Salvador, na
Bahia: a Odebrecht Investimentos , a Saner Bahia (consórcio
formado com a Queiroz Galvão e a chilena Bafi ) e
a Andrade Gutierrez , que se associou à carioca Christiani-Nielsen
. O investimento a ser feito apenas no emissário,
sem contar com outras despesas, está orçado
em R$ 160 milhões.
Segundo o edital, publicado em abril, o contrato garante
ao consórcio vencedor, através de títulos
recebíveis da Empresa de Saneamento Básico
da Bahia (Embasa), o pagamento do valor definido, ao longo
de 18 anos de concessão. A empresa terá ainda
direito a crédito de 70% do total do investimento,
oferecido pelo governo brasileiro com recursos do FGTS,
conforme determina a lei federal das PPP.
A previsão é que o emissário, que possui
cinco quilômetros de extensão, comece a ser
operado em 2008. A obra foi projetada pela Embasa, que está
vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Urbano
(Sedur).
O Sistema de Disposição Oceânica (SDO)
do Jaguaribe terá contrato de concessão administrativa,
em que o próprio governo, através da Embasa,
que é o usuário do serviço.
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