Parcerias público-privadas atraem a Vale do Rio Doce
Danielle
Nogueira
Prioridades são projetos de ferrovias para escoar a
produção
A Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) está interessada
em participar de três projetos que poderão ser
enquadrados nos moldes das parcerias público privadas
(PPPs). São eles: ferrovia Norte Sul, ferrovia Serra
do Tigre e ferrovia Litorânea Sul. Juntos, os projetos
demandam investimentos da ordem de US$ 1 bilhão, na
avaliação da mineradora. De acordo com o diretor
financeiro e de Relações com Investidores da
Vale, Fabio Barbosa, os três traçados representam
uma prioridade para a companhia por permitir a ampliação
dos serviços de transporte de carga geral (carga de
terceiros).
Dos três projetos, a Ferrovia Norte Sul, que vai ligar
Campo Alegre (PA) a Guaraí (TO), é o mais adiantado
e deverá ser um dos cinco projetos prioritários
das PPPs a serem licitados. Como a Vale já é
operadora de um dos trechos da ferrovia, tem especial interesse
no projeto. “Nós já operamos a ferrovia
com carga geral e, portando, teremos todo interesse em participar”,
afirmou Barbosa. Pelas estimativas da Vale, a expansão
da ferrovia consumirá recursos de US$ 354 milhões
(algo em torno de R$ 955 milhões). O Ministério
do Planejamento trabalha com cifra mais ambiciosa: R$ 1,4
bilhão.
Barbosa não deixou claro se a empresa cogita firmar
parcerias para alcançar o volume de investimentos desejado
pelo ministério. Mas certamente não enfrentaria
problemas em identificar potenciais parceiros. De acordo com
Antônio José Alves, chefe da assessoria econômica
do Ministério do Planejamento, há outros investidores
interessados no Brasil e no exterior. “No Brasil, os
operadores de ferrovia têm interesse e, surpreendentemente,
há muito interesse estrangeiro, principalmente do Japão
e da China”, afirmou. A ferrovia é usada hoje
pelas fazendas do Centro-Oeste para escoar a produção
de produtos agropecuários pelo Porto de Itaqui (MA),
em especial a soja.
Outro projeto apontado pela Vale como prioritário é
o trecho da ferrovia Serra do Tigre que vai de Ibiá
(MG) a Garças de Minas (MG). Segundo Barbosa, a via
é muito tortuosa, o que torna o transporte lento.
“O que está se pensando é fazer um novo
traçado para dar mais velocidade à ferrovia,
potencializando o transporte de carga, em particular da agroindústria”,
disse o diretor da Vale. “Esse investimento não
se paga, daí a necessidade das PPPs”, completou
Barbosa, que avalia o investimento em US$ 475 milhões.
Já a Litorânea Sul substituirá um trecho
montanhoso da Ferrovia Centro Atlântica (FCA), ligando
os municípios de Vitória e Cachoeira do Itapemirim,
ambos no Espírito Santo. O investimento estimado é
US$ 236 milhões.
Financiamento garantido
O BNDES será um dos agentes financiadores de projetos
como esse que a Vale manifestou interesse. O presidente da
instituição, Guido Mantega, não se arrisca
a avaliar o montante de financiamento que as PPPs vão
demandar, mas lembrou que a área de infra-estrutura
é a que vem apresentando o maior crescimento de desembolsos.
Em 2004, foram R$ 15 bilhões e a previsão para
este ano é de R$ 21 bilhões. Se considerados
projetos em análise e aqueles que ainda não
foram encaminhados ao banco, mas que já foram foco
de conversas informais com investidores, a cifra vai a R$
81 bilhões. “Não vai ser por falta de
oferta de crédito que vamos deixar de fazer as PPPs”,
disse.
De acordo com Mantega, o mais provável é que
as PPPs sejam financiadas seguindo as regras dos chamados
project finance, modalidade de financiamento que o BNDES não
faz e à qual o ex-presidente Carlos Lessa era avesso.
Neste tipo de financiamento, o tomador de empréstimo
dá como garantia o próprio empreendimento. É
feita uma Sociedade de Propósito Específico
(SPE), desvinculando o projeto a ser financiado dos negócios
da empresa tomadora do crédito. No caso de uma rodovia,
por exemplo, os recebíveis com os pedágios podem
ser oferecidos como garantia, em vez de parte do patrimônio
da companhia.
“É mais seguro ter uma empresa que tenha um fluxo
de caixa rentável do que uma empresa que apresente
um patrimônio que naquele momento tem um valor, mas
que, se a empresa for mal, aquilo deixa de ter valor. E aí
o banco não consegue receber. É uma mudança
no conceito de risco”, diz Mantega. É com argumentos
como esse que o presidente do BNDES quer buscar consenso dentro
do governo.
“O BNDES não faz project finance, mas esperamos
que ele possa fazer. Só que, para isso, temos que criar
um consenso. Como somos um banco público, temos que
ter todo judiciário convencido de que é seguro
fazer um empréstimo dento dessa modalidade”,
completou Mantega, sem fazer previsões de quando esse
tipo de operação estará disponível
para os investidores.
“Step and right”
O aumento de risco para o financiador seria compensado pelo
mecanismo do step and right, ou seja, caso a empresa tomadora
de empréstimo não cumpra com o contrato (calote,
por exemplo) ou administre mal o empreendimento, a concessão
desse empreendimento poderá ser “cassada”
pelo financiador e repassada a outra empresa interessada.
A aprovação desse tipo de financiamento é
um antigo pleito da indústria. O diretor do grupo Odebrecht
, Irineu Meireles, falando em nome da Associação
Brasileira de Infra-estrutura e Indústrias de Base
(Abdib), afirmou que o project finance é fundamental
para que as PPPs se mantenham de pé.
“Sem o project finance nós entendemos que o programa
fica extremamente falho”, disse.
Essas inovações, que serão aplicadas
às PPPs, também deverão ser incorporadas
às concessões convencionais. Será encaminhada
ainda este ano ao Congresso Nacional uma proposta de alteração
da Lei de Concessões que altera os mecanismo de financiamento,
enquadrando-o nos moldes do project finance. O ministro do
Planejamento, Paulo Bernardo, reconheceu que as mudanças
aumentam o risco para o Estado, mas disse que isso tem de
ser feito para atrair os investidores.
Paulo Bernardo afirmou que algumas indefinições
nas questões jurídicas podem atrasar as licitações,
cujos contratos deveriam ser assinados até março.
Na opinião do ministro, se os contratos não
forem assinados até abril, dificilmente as PPPs sairão
nesse governo pelo fato de 2006 ser um ano eleitoral. A engenharia
financeira do fundo garantidor, que deveria ter sido concluída
em maio, agora tem junho como data limite. E os editais ficaram
“para o fim do ano”.