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Publicação da Gazeta Mercantil de 30 de maio 2005

Estabilidade é essencial para...

As parcerias (PPP) provocaram grande interesse de presidentes e CEOs japoneses. Longo prazo quer dizer 30 anos, e não 5, afirmou o presidente do Mizuho Corporate Bank, Hiroshi Saito, em café da manhã com a delegação do presidente. Por diversas vezes, Lula forneceu dados sobre a estabilidade da economia e a intenção de manter tal quadro.

Os asiáticos mostraram interesse nas Parcerias Público Privadas (PPP) durante café da manhã com 16 presidentes e CEOs de grandes empresas japonesas e órgãos de crédito, como o Japan Bank for International Cooperation (JBIC), e no seminário Brasil-Japão: Oportunidades de Comércio e Investimentos, que conseguiu reunir cerca de 500 japoneses e empresários brasileiros.

País quer infra-estrutura

"Somos um país que precisa ampliar sua infra-estrutura", disse aos japoneses o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan. Nesse caso, os empresários asiáticos pediram regras claras sobre a participação do capital estrangeiro nos projetos, indicando que são um incômodo os pontos pendentes dessa iniciativa, como o do papel das agências reguladoras responsáveis pelas concessões.

Outras reclamações e dúvidas fizeram parte do seminário e até causaram constrangimento, segundo participantes. Um empresário japonês levantou a questão da corrupção no Brasil e das dificuldades de abertura de empresas. Num estudo entregue à CNI, a Keidanren protestou contra o complexo sistema fiscal brasileiro e a falta de segurança pública.

Segundo o vice-presidente da CNI, José Freitas de Mascarenhas, a continuidade das discussões de um Acordo de Parceria Econômica (EPA) deverá ser incumbência de um grupo de estudo formado por representantes da indústria, governo e academia. Serão feitos levantamentos sobre as oportunidades de negócios e investimentos em várias áreas, como tecnologia da informação e turismo, uma vez que esse é o formato EPA, indo além do livre comércio. O assunto será levado aos outros países do Mercosul, pois o Brasil não pode, sozinho, assinar um acordo como este. A negociação não deverá ser fácil. Sua concretização somente ocorrerá se a discussão de um acordo entre Mercosul e União Européia e a da Área de Livre Comércio das Americas (Alca) avançarem, afirmou.

Do lado brasileiro as resistências ocorrem com os setores eletroeletrônicos, telecomunicações e veículos. Do lado japonês, as dificuldades vêm da área agrícola.

Apesar do protecionismo no agronegócio, até mesmo os exportadores de carnes estão otimistas. O Brasil não consegue vender carne bovina e suína "in natura" para os japoneses devido à febre aftosa. Pedro Camargo Neto, da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne Bovina (ABIEC), afirma que em razão da ocorrência de vaca louca no Japão e da febre aviária na Ásia, há algum tempo o país está sendo visto com outros olhos.

Uma amostra de como é dificil negociar com os japoneses nessa área, na qual eles impõem uma série de barreiras sanitárias, é que a manga está desembarcando no país após mais de 30 anos de negociação. Os chilenos levaram duas décadas negociando a venda de uvas.

Toda vez que falou com os empresários, o governo e até com o parlamento japonês, Lula tentou passar a imagem de que o Brasil é um investimento seguro. Uma de suas frases nesses encontros foi: "Não brincamos em se tratando de política econômica", disse no encerramento. "Não tomaremos nenhuma atitude que possa significar tornar a economia brasileira vulnerável e nem tampou-co nenhuma medida populista, que muitas vezes serve para eleger um candidato, mas que afunda o Brasil em anos e anos de recessão", completou. Na ocasião, aproveitou para repetir aos empresários brasileiros que não esperem pelas oportunidades de negócios. "É preciso que cada um faça como o bom turista japonês: coloque a sua sacolinha nas costas, o chapeuzinho na cabeca, sua máquina fotografica, e vá conhecer o mundo". No Parlamento, deixou claro o motivo de sua visita, afirmando querer que o Brasil volte a ser destino preferencial de investimentos japoneses. O país asiatico tem tido foco firme na China, onde figura entre os maiores investidores estrangeiros.

"O Brasil é um bom lugar para investir agora. A economia está estabilizada, cresce e a inflação está sob controle", disse Ken Wakazuki, gerente geral da divisão de Negócios Estrangeiros da Toyo Engineering, empresa que tem parceria com a Petrobras na construção de projetos de dutos.

A Petrobras aumentou seu numero de acordos com empresas do Japão. Dos cerca de 10 contratos assinados com empresas brasileiras e japoneses na visita, 4 envolveram a estatal. Os contratos somaram US$ 2,1 bilhões, dos quais US$ 1,2 bilhao envolve a Petrobras. Um deles, para financiamento de US$ 900 milhões, foi fechado com o Japan Bank for International Cooperation (JBIC), o Nippon Export Investment Insurance (NEXI), o Sumitomo Mitsui Banking e a Mitsui e a Itochu para modernização da Refinaria Henrique Lage (Revap), em São José dos Campos (SP). Outro, de US$ 300 milhões, foi fechado com o NEXI e Sumitomo Mitsui. O dinheiro virá de um pool de bancos e será usado em segurança e meio ambiente. Um terceiro acordo representa "salto de qualidade na relação com o JBIC", disse o presidente da Petrobras, José Eduardo Durta. O acordo busca a identificação de projetos para exploração, produção e refino e gás natural em que a estatal e companhias japonesas possam a atuar juntas no Brasil e no exterior. O último, envolvendo a Mitsui e a Vale do Rio Doce, prevê estudo de necessidades logísticas para exportação de etanol para o Japão.

A Vale assinou um contrato com o JBIC de US$ 150 milhões para financiamento de logística, para compra de vagões ferroviários. O acordo fala ainda em apoio do banco para a construção de ferrovias no Brasil. Agnelli disse que a Vale tem estudado o fim de gargalos em suas linhas e que há interesse em construir grande parte da linha Norte-Sul.

A Vale tem US$ 400 milhões em crédito com a NEXI, que faz operações para reduzir o risco financeiro. Tem ainda US$ 900 milhões em valores já encontrados - incluindo os US$ 150 milhões assinados em Tóquio -, com o JBIC. A empresa previu exportar US$ 1,5 bilhão para o Japão em 2005, ou cerca de 10% de seu faturamento total.

Do lado brasileiro, os negócios podem levar algum tempo para mostrar um crescimento significativo com a segunda maior economia do planeta (de U$ 4,7 trilhões), ainda mais quando se trata de um país extremamente avesso a riscos. Sabe-se também que a reaproximacão buscada pelo Brasil com o Japão deverá ser diferente daquela vista nos anos 60 e 70, fortemente promovida por ações e grandes projetos do governo.

No início da década de 70 o Brasil chegou a ficar com 10% do investimento japonês no exterior. O percentual foi caindo e em 2003 foi registrado 1,8%.

No café da manhã com Lula estavam representantes das empresas Mitsubishi, Marubeni, Honda, Oji Paper, Sony, Toshiba e Nippon Steel.

O presidente da Agência de Promoçâo de Exportações Brasileiras (Apex), Juan Quiros, afirmou que a instituição estuda a abertura de um centro de distribuição de produtos do País no Japão, o que beneficiaria em especial empresas de pequeno e médio portes. A Apex também está acertando com a Isetan, uma das maiores lojas de departamentos, um espaço experimental para exposição de produtos brasileiros em 2006.

O centro seria uma medida semelhante à adotada em Miami, Dubai e na Alemanha (neste último será aberto em setembro ou outubro). A decisão final deve sair em 90 dias. A iniciativa seria uma parceria entre governo e iniciativa privada. Nos EUA, o centro conta com benefícios concedidos pelo governo local. A Apex, que vai investir US$ 1,5 milhão em sete eventos no Japão neste ano, é responsável pela administração e operação do local e auxilia nos levantamentos sobre inserção de produtos.

A empresa paga pela área do estoque e show room. A instituição avalia haver espaço para exportar mais calcados, sucos de frutas, cachaca, cosméticos, cafés especiais, jóias e alimentos processados.

kicker: Há ainda espaço para exportar calcados, sucos de frutas, cachaça, cosméticos e alimentos processados, previu a Apex

(Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 6)(Claudia Mancini)

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