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Publicação de o Estado de
São Paulo de 29 de novembro de 2006
Oportunidades do pacote de bondades
Antonio Corrêa de Lacerda*
O pacote governamental que deve ser divulgado nos próximos
dias tem gerado muita discussão, tanto do ponto de
vista dos instrumentos quanto à sua eficácia
para promover o crescimento da economia. Da mesma forma,
muito se fala no Brasil da falta de recursos para os projetos.
No entanto, o País dispõe de uma indústria
de fundos de investimento, cujo patrimônio deve chegar
proximamente a R$ 1 trilhão. O desafio é fazer
com que uma parcela desse montante seja direcionada aos
investimentos da área produtiva. Os elevados juros
pagos pelos títulos públicos, assim como incertezas
regulatórias e de licença ambiental, têm
sido impeditivos para o aumento dos investimentos em infra-estrutura
e produção. Da mesma forma, tributação
elevada, excessiva burocracia e o câmbio valorizado
têm afetado negativamente as decisões de investimentos
em novos projetos na área de produção
e desenvolvimento. O desafio brasileiro é significativo.
É preciso ampliar, dos atuais 20% para 25% do Produto
Interno Bruto (PIB) - o total de investimentos públicos
e privados, nacionais e estrangeiros, na infra-estrutura,
na construção civil e em máquinas e
equipamentos - a Formação Bruta de Capital
Fixo. Isso, em números redondos, representa aumentar
o montante de investimentos da economia dos atuais R$ 400
bilhões para R$ 500 bilhões ao ano. Para suprir
o gap de R$ 100 bilhões é preciso incentivar
investimentos públicos e privados. O uso do recurso
do Projeto Piloto de Investimento (PPI), que prevê
a utilização de um montante de até
0,5% do PIB (cerca de R$ 10 bilhões) em investimentos
em infra-estrutura, sem comprometer as metas fiscais, também
é importante. Há também a necessidade
de contar com as Parcerias Público-Privadas (PPPs),
assim como com concessões de serviços públicos
à iniciativa privada. A questão dos incentivos
de desoneração tributária, por exemplo,
tem de ser tratada tendo em vista uma perspectiva dinâmica.
Muitos vêem contradição entre a necessidade
de ajuste fiscal e, ao mesmo tempo, da concessão
de incentivos fiscais que representam renúncia fiscal,
ou seja, perda de arrecadação potencial. É
preciso, no entanto, levar em conta que, sem esses incentivos,
muitos dos investimentos não seriam realizados. Se
o País deixa de cobrar um imposto sobre investimentos
em máquinas e equipamentos, ou infra-estrutura, por
exemplo, em tese ele deixa de arrecadar essa receita. Visto
apenas dessa maneira, seria contraditória diante
da necessidade de ajuste nas contas públicas. Mas,
apesar disso, por que a maioria dos países adota
medidas de desoneração tributária,
quando se trata de investimentos? A questão é
o investimento, o motor da economia. Quando uma empresa
compra máquinas e equipamentos, por exemplo, ou alguém
decide constituir ou expandir um negócio, isso provoca
um ciclo virtuoso na economia. Ao produzir, a empresa contratará
fornecedores, prestadores de serviços e funcionários
que gerarão renda, ampliando a receita tributária.
Além disso, há os efeitos indiretos do aumento
da capacidade produtiva e da melhora da infra-estrutura,
que desobstruirão os gargalos existentes, o que também
fomentará novas atividades. Assim, a “renúncia
fiscal” do investimento inicial tende a ser mais do
que compensada com a receita adicional gerada, além
dos evidentes impactos positivos sobre os empregos, renda
e mesmo exportações. No caso do uso de parte
de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço
(FGTS) para a constituição de um fundo específico
para o financiamento da infra-estrutura, a medida deve ser
altamente benéfica não apenas para a economia
do País, mas para os próprios trabalhadores.
Haverá ganhos diretos, uma vez que a rentabilidade
esperada deverá superar a remuneração
prevista no fundo. Além disso, ao desobstruir os
gargalos da infra-estrutura, isso favorecerá o crescimento
sustentado da economia brasileira e, em conseqüência,
a geração de emprego e renda. As medidas previstas
no pacote governamental não resolverão todos
os problemas inerentes ao baixo crescimento. Mas se trata
de uma medida que, combinada com outros ajustes na política
macroeconômica e de desenvolvimento, deve dar o impulso
nessa direção.
Antonio Corrêa de Lacerda, doutor em economia
pela Unicamp, é professor-doutor da PUC-SP e autor,
entre outros livros, de Globalização e Investimento
Estrangeiro no Brasil (Saraiva). E-mail: aclacerda@pucsp.br
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