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Publicação da Gazeta Mercantil de 27 de junho 2005

Dilma assume com a tarefa de "agilizar processos"

A chegada da nova ministra animou a iniciativa privada na esperança de destravar projetos. A missão de fazer andar a agenda positiva do governo significará mais para a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, do que agilizar o desempenho da pasta que ocupa desde a última terça-feira. Na avaliação de segmentos do setor produtivo, a paralisia que cerca projetos fundamentais para movimentar a economia deriva, em grande parte, da inabilidade do próprio governo negociar.

Não obstante os mais de 60 grupos de trabalho articulados em 30 meses de administração, com vistas a construir projetos consensuais, de tramitação ágil no Congresso Nacional, a grande falha do Executivo diante de sua agenda tem sido, nessa análise, não conversar.

Proclamado "o ano da infra-estrutura" pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 2005 até agora trouxe poucos avanços para os investimentos na área. A imobilidade do setor fez com que Lula esperasse a nova chefe da Casa Civil ocupar o gabinete do quarto andar do Palácio do Planalto já com uma lista de prioridades na mão. Entre elas, a execução das Parcerias Público-Privadas (PPPs), que depende ainda da regulamentação da lei aprovada no ano passado pelo Congresso, a construção da ferrovia Transnordestina, a recuperação da malha rodoviária e a transposição do São Francisco.

Muito dessa situação pode ser explicada pela restrição orçamentária resultante da necessidade de formação de superávit primário, mas o principal fator para a paralisia na agenda governamental para a infra-estrutura é a atitude do próprio governo diante do Congresso, avalia o coordenador do Comitê de Assuntos Legislativos da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Carlos Alberto Cidade. Segundo ele, o Executivo tem se mostrado rígido na negociação com a sociedade, na formulação de projetos, e com o Congresso. "O excesso de medidas provisórias enviadas ao Parlamento é um bom exemplo dessa falta de disposição ao debate. E mesmo propostas elaboradas com a participação dos segmentos interessados, como foi o caso da reforma sindical, elaborada em conjunto com sindicatos e empresários, levam a marca da dureza do governo em negociar. Ouviram todos os lados, mas na hora de enviar o texto ao Congresso, foi uma proposta que só atendeu o interesse do próprio governo", exemplifica Cidade.

Outra amostra da indisposição ao diálogo seria o projeto sobre o novo modelo das agências reguladoras, cujo relatório está para ser votado em uma comissão especial da Câmara desde dezembro do ano passado. A proposta do governo, vista pelo mercado como centralizadora, devolve aos ministérios o poder concedente, institui a figura dos contratos de gestão, como forma do Executivo exercer o controle social sobre órgãos reguladores e estabelece a obrigatoriedade de ouvidorias nas agências. Para o especialista da CNI, é a pouca abertura do governo em aceitar modificações no texto que está atrasando sua tramitação. "O governo não escuta o Congresso, e se coloca muitas vezes em uma posição antagônica em relação a esse Poder. Não é uma postura que facilite qualquer negociação", critica Cidade. Na avaliação do presidente da Associação Nacional de Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib), Paulo Godoy, o atraso na tramitação do texto gera um ambiente de insegurança para novos investimentos e atrasa o setor.

Dilma Rousseff ainda terá pela frente o trabalho de destravar projetos chave para o governo Lula. A transposição do São Francisco, uma das bandeiras levantadas ainda durante a campanha presidencial pelo PT, deve ser iniciada em agosto. A construção da Transnordestina, que oferecerá uma alternativa de escoamento para a safra agrícola das regiões Centro-Oeste e Sul pelos portos do Nordeste, mais a recuperação da malha rodoviária do país, são fundamentais para o setor de logística. Mas enfrentam problemas por conta da ausência de regulamentação para as PPPs, da escassez de recursos e da lentidão do processo de licenciamento ambiental.

Para Godoy, o desembaraço no contato entre as duas áreas é apenas um exemplo do verdadeiro desafio que Dilma enfrentará na pasta. "Em uma visão mais geral, o que ela precisará fazer é a reavaliação do modo do governo gerir o aparato estatal. Isso passa por uma mudança na mentalidade do governo, excessivamente centralizador, por uma reforma política, pela redução dos custos gerados pela máquina do estado e pelo trabalho de repensar o superávit primário", finalizou.

(Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 7)(Karla Correia)

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