Publicação
do Valor Econômico de 22 de outubro de 2003
Financiamento para PPPs dependerá de
garantias
O
financiamento dos projetos de infra-estrutura que o governo federal
planeja viabilizar com o mecanismo das parcerias público-privadas
(PPP) vai depender da apresentação de garantias
sólidas pelas empresas interessadas em realizar esses investimentos.
Sem essas garantias, será muito difícil arranjar
dinheiro para dar a partida nos projetos.
O
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES),
que deverá ter um papel relevante nesses projetos, pretende
tratar as empresas envolvidas em PPPs como tomadoras de empréstimos
comuns. `Sem garantias consistentes, não vamos financiar
nada`, disse ontem o gerente executivo da área jurídica
do banco, Luiz Borges, durante um seminário promovido pelo
Institute for International Research (IIR) em São Paulo.
Boa
parte da discussão em torno das PPPs tem se concentrado
sobre os mecanismos que asseguram o pagamento de obras e serviços
contratados pelo setor público e os dispositivos criados
para atrair empresas para projetos muito arriscados, ou pouco
rentáveis. Mas essas inovações podem ser
insuficientes para envolver investidores que tenham o dinheiro
necessário para financiar a fase inicial desses projetos.
Uma
proposta de regulamentação das PPPs foi divulgada
pelo Ministério do Planejamento semana passada. O governo
tem colhido sugestões para aperfeiçoá-la
e sua intenção é enviar ao Congresso a versão
final do projeto até o fim do mês, segundo o assessor
especial do ministério Fernando Haddad, que coordena a
discussão do tema no governo.
No
modelo proposto pelo ministério, as PPPs permitem que o
governo contrate a construção de uma estrada e só
comece a pagar pela obra depois que ela estiver pronta. O mecanismo
também autoriza o governo a pagar um subsídio para
complementar valores arrecadados com tarifas e pedágios
se eles forem insuficientes para remunerar a empresa que realizar
o investimento.
Como
o governo só começa a pagar mais tarde, é
preciso arranjar financiamento para a obra em outro lugar. Como
as PPPs tornam garantidos os pagamentos do governo e atenuam os
riscos dos projetos, o governo acha que isso ajudará as
empresas a obter financiamento em boas condições
no mercado. Mas ainda existem várias dúvidas sobre
isso.
Também
será preciso dar garantias que protejam os financiadores
quando algo mais der errado. A empresa que construir uma rodovia
seguindo o modelo das PPPs deverá cumprir metas nos anos
em que estiver cuidando da operação da estrada.
O governo poderá suspender os pagamentos à empresa
se as metas não forem cumpridas, e aí o banco que
tiver financiado a obra poderá levar um calote se não
tiver tomado cuidado no início do projeto.
É
uma preocupação grande para os fundos de pensão,
vistos pelo governo como uma potencial fonte de recursos para
tirar as PPPs do papel. `Precisamos de garantias de retorno e
não podemos tomar riscos excessivos`, disse o presidente
do Petros, o fundo de pensão dos empregados da Petrobras,
Wagner Pinheiro, que também esteve no seminário.
Para
Borges, do BNDES, os riscos da fase inicial e a relativa demora
para que os projetos comecem a receber pagamentos do governo tornam
as PPPs pouco atrativas para os fundos de pensão. Mas Pinheiro
acredita que esse tipo de problema poderá ser contornado
com garantias que protejam o dinheiro dos fundos e assegurem retornos
mínimos para seus projetos no futuro.
Como
muitos empresários, os fundos também se preocupam
com a incerteza que cerca as regras nos setores de energia e saneamento
básico. `Não vamos entrar em saneamento sem um marco
regulatório claro que evite surpresas desagradáveis`,
disse o presidente da Funcef, fundo de pensão dos funcionários
da Caixa Econômica Federal (CEF), Guilherme Narciso de Lacerda.