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Publicação do Valor Econômico de 20 de dezembro de 2006

 

Rodovias: uma proposta ousada

Cristiano Romero

"Nunca antes neste país" o governo federal investiu tão pouco em transportes, como na gestão Lula. Em 2004, segundo dados apurados pelo economista Raul Velloso, os investimentos chegaram ao menor patamar em 29 anos - 0,1% do PIB (R$ 2 bilhões). Em 2006, ano em que o atual governo mais gastou, a despesa deve chegar a 0,19% do PIB, um décimo do que foi aplicado em 1975.


A deterioração mais evidente está no sistema rodoviário, o que implica restrição ao crescimento econômico ao reduzir a eficiência do setor produtivo e aumentar os custos. Pesquisa feita este ano indica que o estado de 41,4% das estradas do país é "ruim" ou "péssimo". Menos de 17% estão em "bom" ou "ótimo" estado.


Nos últimos anos, o governo passou a contar com uma fonte específica de recursos para aplicar em transportes - a Cide (Contribuição de Intervenção sobre o Domínio Econômico). Em 2005, ela rendeu aos cofres públicos R$ 7,6 bilhões, mas, como se viu, menos de um terço foi investido no setor. Neste ano, a arrecadação da Cide deve ficar em torno de R$ 8 bilhões e, novamente, a maior parcela dos recursos está sendo destinada ao custeio de outras despesas.


Esse quadro não deve mudar muito nos próximos anos, o que torna nebulosas as perspectivas de melhoria da infra-estrutura do país. É nesse contexto que surge uma proposta ousada para enfrentar o problema. Seu autor é o secretário de Transportes e Obras Públicas de Minas Gerais, Paulo Paiva.


Paiva propõe que, dadas as dificuldades da União em investir em suas próprias rodovias, o governo federal autorize os Estados a aplicarem, na recuperação dessas estradas, parte do que transferem mensalmente ao Tesouro Nacional, a título de pagamento da dívida renegociada em 1997. No caso de Minas Gerais, o governo compromete 13% de sua receita líquida com esses pagamentos, algo em torno de R$ 1,4 bilhão por ano.


Ministro do Trabalho e do Planejamento no governo FHC e vice-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Paulo Paiva é um defensor ferrenho da responsabilidade fiscal. Jamais poderia ser acusado de fazer uma proposta temerária. Sua idéia é justamente usar uma janela de investimento (os Projetos-Pilotos de Investimento - PPIs), já prevista pelo governo Lula, para viabilizar o aumento das inversões no setor de transportes.


Investimento em estradas é o menor da História


Minas Gerais responde por 13% da malha rodoviária nacional e por 18% das estradas federais. Para recuperar e adequar oito mil quilômetros das rodovias federais no Estado, Paulo Paiva acredita que seriam necessários algo entre R$ 4 bilhões e R$ 5 bilhões. "Há a necessidade de se identificar fontes para esses investimentos compatíveis com o equilíbrio fiscal e a estabilidade da economia", defende ele.


Ao elaborar sua proposta, o secretário imaginou três fontes de financiamento. A primeira, de caráter transitório (vigoraria entre 2007 e 2011), seria o uso de recursos que os Estados deixariam de pagar à União para aplicar em rodovias - isto seria feito por meio de PPIs, ou seja, de recursos que hoje compõem o superávit primário das contas públicas.


Para tanto, seriam fixadas três condicionantes: um banco de desenvolvimento (o BNDES ou o BDMG) seria o agente responsável pela avaliação econômica dos projetos; após a recuperação da rodovia, o Estado promoveria imediatamente a concessão comum ou por meio de PPP (Parceria Público-Privada); os investimentos voltariam para a União nos anos seguintes em forma de novos impostos e pagamento de outorga.


A obrigatoriedade da concessão da rodovia ao setor privado após o investimento evitaria gastos com custeio mais adiante. A possibilidade de retorno para o Estado também é concreta - em 2005, segundo dados da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), a receita total das concessões de estradas no Brasil foi de R$ 5,379 bilhões; desse valor, 20% foram repassados aos governos em forma de pagamento de outorgas e tributos. "A manutenção das rodovias não-passíveis de concessão ficaria sob responsabilidade do Estado", diz Paiva, citando mais uma garantia a ser dada à União.


A segunda fonte de financiamento do plano de recuperação das rodovias seriam justamente as concessões. A terceira seria a Cide. Hoje, além de o governo federal não aplicar plenamente os recursos arrecadados em transportes, a DRU (mecanismo que desvincula parcela das receitas da União) retém 20% da Cide, sendo que os Estados ficam com apenas 17,4% do tributo. Paiva sugere que a DRU passe a não incidir sobre a Cide e que seus recursos sejam integralmente repassados aos Estados. Esta é, sem dúvida, a parte mais delicada da proposta do ex-ministro.


Interessado em destravar os investimentos, o governo Lula pode achar em Minas Gerais um parceiro criativo e, ao mesmo tempo, responsável. "As propostas para investimentos públicos devem estar consistentes com as prioridades efetivas da economia do país e com os fundamentos da política macroeconômica, em particular com o equilíbrio fiscal", explica Paulo Paiva.


Cristiano Romero é repórter especial em Brasília e escreve às quartas-feiras

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