FMI recomenda critério nos gastos
Tatiana
Bautzer - A melhor maneira de evitar "elefantes brancos"
que desperdiçam dinheiro público em infra-estrutura
é criar um padrão mínimo, sem o qual
nenhum projeto sai do papel. Também é útil
comparar projetos em diferentes setores. Esses filtros eliminam
empreendimentos fadados ao prejuízo com objetivo puramente
político, acredita a diretora do Departamento de Assuntos
Fiscais do FMI. Teresa Ter-Minassian é contra a excessiva
tomada de risco pelo governo em parcerias com o setor privado.
Ter-Minassian
coordenou o projeto piloto sobre investimentos públicos
criado pelo FMI a pedido do Brasil, do qual participaram também
Chile, Colômbia, Índia, Peru, Jordânia,
Gana e Etiópia. Num "paper" de 50 páginas
com os resultados, o departamento diz que as parcerias com
o setor privado não são uma "panacéia"
para investir e ressalta a necessidade de explicitar nas contas
públicas o risco total assumido pelo governo. O FMI
critica o que está sendo adotado pela Europa para a
contabilidade das parcerias.
Italiana,
fluente em cinco línguas, a diretora do Departamento
de Assuntos Fiscais conhece bem a América Latina. Foi
vice-diretora do Departamento do Hemisfério Ocidental,
responsável pelo Brasil e Argentina, a partir de 1998.
Em meio à euforia dos mercados, Ter-Minassian foi uma
das primeiras e mais enfáticas críticas da falta
de ajuste fiscal na Argentina durante a fase da âncora
cambial.
A
diretora só concordou em falar depois da aprovação
pela diretoria do FMI, no fim de maio, das conclusões
do projeto piloto. A seguir, os principais trechos da entrevista
da diretora, concedida com integrantes do departamento que
participaram do estudo.
Valor:
Qual foi a conclusão do projeto piloto? Muitos pensavam
numa solução mágica contra as restrições
orçamentárias...
Teresa
Ter-Minassian: Desde o início acreditávamos
que essa visão não era apropriada, não
há como resolver o problema da falta de investimento
público simplesmente com mudanças contábeis,
ou por uma mudança de meta no orçamento, ao
invés de um equilíbrio real. Acho que hoje há
um acordo no nível dos ministros de finanças
de que a questão não é contábil.
Em vários países houve uma redução
do investimento público, que criou alguns gargalos
de infra-estrutura. É difícil estimar o efeito
do investimento público no crescimento econômico.
Mas de qualquer forma há gargalos e a necessidade de
direcionar recursos para solucioná-los, seja usando
parcerias entre o governo e o setor privado, seja melhorando
o clima para investir. Também há a alternativa
de se criar mais espaço no orçamento para investimento
redirecionando as prioridades orçamentárias.
Mas uma conclusão mais inesperada é a de que
há um espaço importante para melhorar a qualidade
do investimento público com um melhor critério
na seleção, avaliação e prioridade
dos projetos.
Mesmo
em países como o Peru, por exemplo, onde há
uma tradição de avaliação do investimento,
poderia haver melhor definição das prioridades.
Acreditamos que o mesmo volume de recursos poderia gerar melhor
resultado na melhora da infra-estrutura. Um exemplo é
recuperar a infra-estrutura existente ao invés de criar
novos projetos. Tentamos expor essas conclusões no
paper e no seminário que fizemos no Brasil há
algumas semanas.
Valor:
O estudo menciona que a rentabilidade de muitos projetos cai
durante a implantação. Por quê?
Ter-Minassian:
Acho que é uma combinação de vários
fatores. Primeiro, há um excesso de otimismo nas premissas
iniciais sobre o ambiente macroeconômico, particularmente
na América Latina há grande volatilidade do
ambiente econômico. Você pode assumir uma taxa
de crescimento constante que não se realiza quando
o país é atingido por um choque externo, por
exemplo; ou no caso de um financiamento em moeda estrangeira,
a taxa de câmbio não corresponde ao que era esperado.
Esses são apenas alguns exemplos, mas também
há custos de construção e manutenção
subestimados. Em alguns casos, ocorre uma superpopulação
de projetos: depois que o projeto é iniciado surgem
outros cinco ou seis na mesma área. Há ainda
interrupção de obras, o que eleva os custos.
Existe também o fator político, em que os políticos
gostam de receber os louros pelas obras, e tendem a anunciar
novos investimentos ao invés de terminar o que já
está em andamento.
Um
grande problema, na minha opinião, é a análise
insuficiente sobre as sinergias entre projetos em diferentes
setores. Um dos países que melhor resolveu a questão
é o Chile, que tem uma agência que avalia todos
os investimentos do governo em diversos setores, e compara
as maneiras alternativas de realizá-los. Isso ajuda
a olhar o conjunto e ser mais eficiente na solução
dos gargalos de infra-estrutura.
Valor:
O que pode melhorar no caso do Brasil?
Ter-Minassian:
O Brasil tem uma longa tradição de avaliação
dos projetos, embora essa capacidade tenha se deteriorado
nos últimos anos como resultado das emergências
econômicas pela qual passou o país, e também
pelo fato de os investimentos terem sido restritos, devido
à combinação de restrição
fiscal e rigidez orçamentária. Nossos colegas
do Banco Mundial também acreditam que em alguns setores,
como no de transportes, um pouco da capacidade institucional
foi desmantelada. No Ministério do Planejamento, houve
uma concentração da análise nas prioridades
orçamentárias de curto prazo e menos na avaliação
de investimentos. Embora o Plano Plurianual (PPA) dê
ênfase a alguns projetos estratégicos, o mecanismo
geral de avaliação de projetos sofreu um pouco
com as emergências econômicas dos anos 90. Além
disso, o Brasil nunca teve, como no Chile, uma avaliação
comparativa entre setores com base num modelo econômico
de custo/benefício. Nesse sentido, foi interessante
ver o tipo de análise pela qual todo projeto tem de
passar no Chile. O mecanismo funciona como um filtro, excluindo
os que não tenham uma taxa de retorno mínima.
Valor:
Um dos maiores problemas do investimento público é
a pressão política, seja para investimentos
num setor ou região. Como uma agência resolve
essa questão?
Ter-Minassian:
No caso do Chile, o uso do modelo não quer dizer que
só se escolhe os projetos com a taxa de retorno mais
alta. Mas a análise do custo/benefício age como
um filtro. As prioridades políticas desempenham um
papel depois desse filtro, no momento de escolher entre os
projetos. Acho que em última análise as pressões
políticas são legítimas, afinal um governo
é eleito para fazer escolhas. No Chile a prioridade
tem sido para a modernização da Justiça,
que está recebendo mais recursos do orçamento,
e isso não é um problema. Mas se é um
projeto que beneficia um político específico,
isso é outra coisa, mas aí há o mecanismo
de avaliação que assegura que você não
faça "elefantes brancos".
Valor:
Já existe uma avaliação dos resultados
dos projetos brasileiros até agora?
Ter-Minassian:
Que eu saiba o Tesouro ainda não divulgou o relatório
de implementação desses projetos. Eles tinham
inicialmente uma descrição, com as datas de
implementação e alguns parâmetros. Acredito
que eles devam divulgar isso trimestralmente, o primeiro provavelmente
sairá em julho.
Valor:
No relatório o Fundo critica os governos que assumem
risco demais nas parcerias com o setor privado. Mas o problema
é que muitos investidores exigem isso para colocar
o dinheiro...
A melhor maneira de criar espaço para o investimento
público é reduzir as despesas, possibilitando
a queda dos juros"
Ter-Minassian:
Não somos contra o governo fornecer garantias. Há
certos riscos que devem ser assumidos pelo setor público,
e outros pelo setor privado. Os governos deveriam assumir
riscos relacionados ao ambiente regulatório, questões
que impeçam o reajuste de tarifas etc. Esses riscos
regulatórios são a maior preocupação
dos investidores, porque não podem ser gerenciados
comercialmente. Já os riscos de taxa de juros e câmbio
são um fato da vida para qualquer investidor, esteja
ele no Brasil ou em qualquer mercado. Esse risco faz parte
da análise de custo/benefício para qualquer
investimento, e afinal essa é a essência do setor
privado. O trabalho deles é tomar riscos e receber
o retorno. O risco de performance (de entrega do serviço
nos padrões requeridos) também normalmente fica
com o setor privado. Em alguns casos há um espaço
para a divisão de alguns riscos, como o de demanda,
entre o setor público e o privado. No Chile, o governo
assume parte do risco se a demanda não for suficiente,
mas recebe parte maior se a demanda for acima da expectativa.
A
questão é como contabilizar essa transferência
de risco e assegurar-se que o governo não arque com
risco demais. O valor presente do risco assumido pelo governo
deve ser consistente com a sustentabilidade da dívida
pública e é um fator fundamental nessa análise.
A mensagem é que os governos não podem assumir
risco demais, para evitar tornar a dívida insustentável.
Valor:
O FMI discorda do padrão que está sendo proposto
para contabilidade de parcerias na Europa ?
Ter-Minassian:
O problema é que na Europa o foco tem sido pura e simplesmente
na contabilidade do investimento, se ele deve ser classificado
como público ou privado. Por causa das exigências
do Pacto de Estabilidade, está mais exposta a necessidade
de reduzir o déficit fiscal. Claro que muitos governos
querem classificar as coisas como investimentos privados.
A Eurostat (órgão da Comissão Européia
de estatísticas públicas) está adotando
o seguinte critério: num projeto no qual o risco da
construção e o de demanda ou performance sejam
assumidos pelo setor privado, o projeto é classificado
inteiramente como privado. Mas isso significa que num projeto
no qual a maior parte dos riscos de demanda e financeiros
(taxa de juros, câmbio) sejam assumidos pelo governo,
o projeto é classificado como privado. Achamos esse
critério frouxo demais. Mesmo se concordássemos,
é necessário explicitar esses riscos quando
se avalia a sustentabilidade da dívida do país.
Não importa qual seja o tratamento estatístico,
é necessário que haja transparência sobre
os valores.
Estamos
recomendando que o staff leve isso em consideração
na fiscalização ou em programas com o FMI. Também
é importante limitar os riscos. Na lei brasileira das
parcerias público-privadas (PPP) há um limite
total para pagamentos futuros do governo como porcentagem
da receita - no caso brasileiro é de 1%. Estamos esperando
para ver os detalhes de como será feita a contabilidade
pública pelo Tesouro.
Valor:
De um total de 115 estatais analisadas só três
foram consideradas empresas comercialmente administradas.
No Brasil nenhuma estatal foi considerada independente...
Ter-Minassian:
O critério inicial era bem rígido, e por isso
propusemos uma abordagem mais flexível. O importante
não é considerar se a empresa é gerenciada
comercialmente, mas se ela cria riscos para as finanças
públicas. Pela sua natureza, as estatais não
serão exatamente gerenciadas como se fossem privadas.
O governo as mantêm no domínio público
porque quer utilizá-las para objetivos de política
pública, mas essas compensações devem
ficar explícitas. Elas podem não ser gerenciadas
comercialmente, mas também não criar um buraco
fiscal, então podem ser excluídas dos indicadores
fiscais.
Um
ponto importante é a abrangência das estatísticas
fiscais. Os latino-americanos têm razão em chamar
a atenção para o fato de as estatísticas
na região serem muito mais abrangentes do que em outros
países. Por isso defendemos a expansão da cobertura
de estatísticas fiscais fora da América Latina,
inclusive em alguns países industrializados.
Valor:
No caso brasileiro, depois dessa longa discussão seriam
liberados 0,15% do PIB para investimentos. Não seria
muito mais importante avançar na estabilidade macroeconômica
e reduzir juros?
Ter-Minassian:
Concordo totalmente. Basicamente, o superávit primário
precisa continuar alto porque o endividamento ainda é
alto em países emergentes. O objetivo fundamental do
projeto é instigar a cultura de avaliação
e monitoramento de projetos. Com procedimentos melhores, você
consegue fazer mais com o mesmo volume de dinheiro, por isso
apoiamos esse esforço. Mas em última análise
eu concordo totalmente com os que afirmam que a melhor maneira
de criar espaço para investimento em infra-estrutura
é reduzir despesas correntes e continuar a reduzir
o risco do país, possibilitando a queda dos juros.
Se
fosse escolher o ponto mais importante para melhorar a qualidade
do investimento público, apontaria a avaliação
rigorosa dos investimentos baseada numa análise técnica
do custo/benefício. O mecanismo deveria impedir que
qualquer projeto abaixo do requisito mínimo seja implantado,
sem exceções, não importa quão
grande ou importante seja o projeto. Isso requer vontade política,
mas compensa em termos de maior eficiência dos recursos
públicos.
Valor:
Esse mecanismo rigoroso pode reduzir a corrupção?
Ter-Minassian:
A corrupção não é fácil
de eliminar, mas se há uma análise de custo/benefício
rigorosa, você exclui os projetos anti-econômicos.
Isso precisa ser complementado por um acompanhamento de perto
da implementação do projeto, cumprimento de
prazos e custos. É uma cultura de muito mais de escrutínio,
tanto na avaliação quanto na implementação.
Valor:
O sistema de metas de inflação não cria
uma armadilha em termos de interromper o crescimento periodicamente?
Sempre que o país começa a crescer surgem novamente
pressões inflacionárias...
Ter-Minassian:
Não acredito. Falando como macroeconomista, há
muitos países que usaram o sistema sem criar um padrão
de "stop and go" no crescimento. No caso do Brasil,
a volatilidade das expectativas de inflação
cria um sentimento de vulnerabilidade aos choques, mas se
você usasse outra meta, taxa de câmbio ou base
monetária, ainda haveria volatilidade. O Brasil teve
muito sucesso com o sistema, que realmente baixou a inflação.
Se você lembrar de como eram as expectativas inflacionárias
no Brasil, a experiência é quase um milagre.
Valor:
A crise política do governo Lula pode ameaçar
a credibilidade econômica que foi conquistada a duras
penas?
Ter-Minassian:
Certamente espero que não. Mas isso não é
algo que eu possa comentar, não acompanho mais o Brasil
tão de perto como antes.