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Publicação de O Estado de
São Paulo de 18 de dezembro de 2006
Excesso de controle e até ideologia
atrasam projetos de PPPs federais
Dos 23 empreendimentos lançados
no fim de 2003, só um tem estudos de viabilidade
e modelagem concluídos
Renée Pereira
Não foi desta vez que o governo
federal conseguiu tirar as Parcerias Público-Privadas
(PPPs) do papel para amenizar as carências da infra-estrutura
para o crescimento econômico acima de 5% ao ano. A
estréia da primeira PPP - da BR-116, no trecho Bahia-Minas
- deve ficar mesmo para o próximo ano.
Além disso, as perspectivas não
são nada animadoras em relação a novos
projetos. Da carteira de 23 empreendimentos lançada
em dezembro de 2003, apenas 4 são considerados prioritários
e só 1 tem estudo de viabilidade e a modelagem concluídos.
Nesse ritmo, dizem especialistas, o País terá
uma PPP por ano, bem distante das ambições
do governo na época do seu lançamento. Isso
porque os estudos são demorados e complexos.
Vários projetos foram retirados
da primeira carteira para serem entregues à iniciativa
privada por meio de concessão. Mas não foi
feita nem uma coisa nem outra. As PPPs não saíram
do papel nem as concessões foram realizadas. Um exemplo
é a Ferrovia Norte-Sul - projeto que daria o pontapé
inicial às parcerias federais -, um importante corredor
de exportação da Região Norte.
Os estudos indicaram que a ferrovia poderia
ser feita por meio de concessão comum, pois o retorno
era suficiente para a iniciativa privada. Mas, por três
vezes, o leilão foi adiado. Hoje nem há mais
previsão de data da sua realização.
Outro exemplo é a BR-163, a chamada
Cuiabá-Santarém. A obra também seria
feita por meio de PPP. Depois de feitos os estudos, decidiu-se
que a estrada será pavimentada com dinheiro federal.
Mas pouco se ouve falar do futuro da obra - com cerca de
1.200 km de extensão. Esse também seria um
importante corredor de exportação para o Norte
e beneficiaria a agricultura do Centro-Oeste.
Além da BR-116 (Bahia-Minas), o
governo elegeu como prioritários o Arco Rodoviário
do Rio de Janeiro, o Ferroanel de São Paulo e a Variante
Ferroviária Guarapuava-Ipiranga (Paraná).
Desses, só a BR-116 tem estudo concluído e
está em fase de adaptação do edital,
após audiência pública. Já o
Ferroanel está sob responsabilidade do BNDES, que
contratou a USP para fazer os estudos técnicos e
econômicos. O processo deve ser concluído até
maio.
O banco também contratou técnicos
para preparar os estudos da BR-116 (MG), BR-040 (MG) e BR-381
(MG), que devem ficar prontos até junho. Ao final
desses estudos, o governo definirá se os projetos
podem ser feitos por PPP ou concessão. O problema
é que tudo leva muito tempo. Depois dos estudos,
ainda tem a modelagem da PPP ou da concessão, o que
traz grandes preocupações.
O presidente do BNDES, Demian Fiocca, admite
que o processo de PPP é mais complexo que a concessão
e, por isso, mais demorado. Mas confessa que parte da demora
deve-se ao excesso de controle, seja do Tribunal de Contas
da União, do Ministério Público, de
órgãos ambientais ou dos investidores, no
caso de licitações.
SEM COMPLEXIDADE
“Estamos desequilibrados no excesso
de controle. É preciso haver flexibilidade. Controle
não combina com agilidade”, comenta Fiocca.
Segundo ele, um processo de licitação, que
demoraria três meses, acaba levando oito.
Na avaliação do presidente
da Associação Brasileira da Infra-Estrutura
e Indústrias de Base (Abdib), Paulo Godoy, é
preciso ter convicção de que a PPP vai resolver
alguns problemas e trabalhar em cima disso. “Não
vejo tanta complexidade numa PPP. Não foge muito
do processo de concessão”, diz ele. O executivo
reclama também da demora dos estudos. “Seria
ideal que liberassem uns 10 ou 12 estudos. Mas, do jeito
que está, eles (governo) demoram um ano para soltar
um projeto.”
Para tentar dar agilidade ao processo,
o governo publicou no início do mês um decreto
em que a União poderá solicitar a apresentação
de PPPs sem contratar a empresa. Caso o estudo seja satisfatório,
a companhia será remunerada por quem vencer a licitação.
Mas o governo não é obrigado a fazer a licitação
após solicitar o projeto nem a remunerar a empresa
caso o estudo não seja aceito. Os especialistas não
vêm grandes benefícios com esse decreto.
O problema é que as empresas só
podem fazer o estudo dos projetos que o governo considera
prioritários. Não se pode sugerir um empreendimento
novo. “Há uma dificuldade e falta de eficiência
do poder público para desenvolver os projetos. Por
isso, as empresas deveriam ser incentivadas a fazer os estudos
e entregar ao governo”, argumenta o advogado Benedicto
Porto Neto, sócio da Porto Advogados. Ele afirma
que tem recebido inúmeras consultas sobre projetos
de PPPs e sobre a segurança do programa.
A complicação para estrear
a primeira PPP federal também tem motivos ideológicos.
Segundo fontes em Brasília, há uma divisão
no governo entre os que consideram imprescindíveis
as parcerias com a iniciativa privada e aqueles que questionam
a necessidade desse mecanismo para elevar os investimentos
em infra-estrutura.
O fato é que, depois de tanta demora,
os responsáveis pelo programa preferem o silêncio.
A reportagem do Estado tentou, durante duas semanas, falar
com o Ministério do Planejamento sobre o cronograma
das PPPs, mas não conseguiu resposta. O pacote de
investimentos, que será anunciado nesta semana pela
ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, pode contemplar
algumas medidas em relação às PPPs.
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