Comissão de Infra-Estrutura convoca Dirceu e confronta governo
Raymundo
Costa - O líder do PT no Senado, Delcídio Amaral
(MS), recebeu na sexta-feira passada o requerimento de convocação
do ministro da Casa Civil, José Dirceu, para prestar
esclarecimentos sobre um suposto plano de abertura do capital
da Infraero na Comissão de Serviços de Infra-Estrutura
do Senado. Delcídio decidiu ele próprio receber
a notificação, pois pretende entregá-la
pessoalmente a Dirceu e acertar com o ministro uma estratégia
para evitar o depoimento. A convocação não
foi a primeira e provavelmente nem será a última
peripécia que a comissão arma para cima do governo
no Congresso.
Subestimada
pelo PT, que concentrou seus esforços nas poderosas
comissões de Assuntos Econômicos (CAE) e de Constituição
e Justiça, a CI foi adotada pelos pesos-pesados da
oposição. Entre os quatro integrantes do PFL,
por exemplo, estão Marco Maciel (PE) e Rodolpho Tourinho
(BA); entre os quatro tucanos, Tasso Jereissati (CE) e Teotônio
Vilela Filho (AL). Não foi uma escolha aleatória:
pela Comissão de Infra-Estrutura passam todas as indicações
para as agências reguladoras. Na CI também serão
discutidos os projetos de parcerias público-privadas
(PPPs).
Antes
de convocar Dirceu, a CI já havia imposto uma outra
derrota importante ao governo. Com o PMDB às turras
com a ministra Dilma Rousseff, das Minas e Energia, a comissão
recusou a indicação do engenheiro José
Fantine para a Agência Nacional de Petróleo (ANP).
O PMDB é o fiel da balança - com seis senadores,
num plenário de 23, é determinante para o resultado
das votações. Ainda assim Delcídio não
culpa os pemedebistas pela recusa de Fantine: "Alguém
da base de apoio do governo ou do próprio PT traiu.
Era para ganharmos de 12 a 11, independentemente do PMDB,
e perdemos de 12 a 11. Foi fogo amigo".
O
enredo dos próximos embates é promissor. Já
na terça-feira da próxima semana Delcídio
pretende apresentar seu relatório sobre a nova Agência
Nacional de Aviação Civil. Ele pretende ignorar
questões levadas pelo setor e que tiveram abrigo na
Câmara como encontro de contas empresas-governo, deixar
as companhias durante algum tempo fora do Conselho Administrativo
de Defesa Econômica (Cade) ou estender prazos de concessões.
"Como se foi buscar uma solução de mercado
para as aéreas, deixou-se de pensar numa proposta de
abrangência maior. Será a agência pura",
diz Delcídio.
Para
setembro, o presidente da CI, Heráclito Fortes (PFL-PI),
planeja a realização de um encontro internacional
sobre parcerias público-privadas. É da competência
do Senado, "previamente à contratação"
dos projetos de PPP, opinar sobre limites de despesas. Depende
de sua autorização a concessão em que
mais de 70% da remuneração do parceiro privado
for paga pela administração. "Só
acredito no sucesso das PPPs se as parcerias tiverem a capacidade
de baixar o custo e agilizar as obras", diz Heráclito.
No
comando da comissão, Heráclito se prepara para
questionar os projetos-piloto negociados previamente com o
FMI, cujos investimentos ficam de fora do cálculo do
superávit. Uma relação com cerca de 400
obras chegou ao Congresso no dia da votação
da Lei Orçamentária, em dezembro do ano passado,
sem detalhamento. Este ano o governo já tentou votar
uma errata, também sem especificar com clareza o que
estava corrigindo, mas foi impedido até agora pela
oposição.
Heráclito
enviou correspondência aos 27 governadores, questionando
se foram ouvidos sobre as prioridades. Até agora, 13
responderam. Só Blairo Maggi (MT) respondeu com uma
atenuante: não foi ouvido - resposta dos demais - mas
considera que as prioridades de Mato Grosso foram atendidas.
O senador conta que também fez a mesma pergunta aos
ministros do Turismo, Walfrido Mares Guia, e da Agricultura,
Roberto Rodrigues, e a resposta foi a mesma. "É
uma caixa preta. O FMI sabe disso ou eles também foram
enganados?", diz Heráclito. Ele já avalia
a convocação do ministro do Planejamento, Paulo
Bernardo, para questionar coisas, tais como se as estradas
foram licitadas.
Convocação,
por enquanto, é o problema de Dirceu. Ele deve responder
à comissão que a Infraero não é
de sua área, mas Delcídio deve negociar que
o presidente da empresa, Carlos Wilson, ou o vice José
Alencar compareçam no lugar do chefe da Casa Civil.
A oposição não pretende aceitar. Aceita
transformar a convocação em convite, se Dirceu
marcar a data para o depoimento.
Para
enfrentar os contratempos, o governo tenta recuperar o tempo
perdido em relação à CI. Dilma Rousseff,
por exemplo, recebeu os senadores Alberto Silva (PMDB-PI)
e Valdir Raupp (PMDB-RO), que estavam irritados com a perda
de cargos na área de energia. Na quinta-feira, os dois
começaram a falar bem da ministra a quem, antes, chamavam
de "Sargentão".