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Publicação do Valor Econômico
de 15 de dezembro de 2006
Rotas para crescer
Carmen Lígia Torres
As metas são ousadas, bem como o
orçamento previsto para alcançá-las
- nada menos que R$ 50 bilhões para recuperar e expandir
a infra-estrutura de transportes brasileira, a serem aplicados
em quatro anos. Se parte desses recursos forem efetivamente
aplicados no setor, o país poderá se transformar
em um imenso canteiro de obras.
Nos planos do governo federal, há previsão
de recursos para obras novas e para recuperação,
conservação e manutenção de
rodovias, ferrovias, hidrovias e portos. A qualidade do
portfólio de projetos não é contestada.
Ao contrário, os envolvidos no setor de transporte
confirmam a necessidade deles para a desobstrução
da infra-estrutura.
A intenção, segundo anunciou a ministra Dilma
Roussef, chefe da Casa Civil da Presidência da República,
é que os recursos venham tanto do setor público
como do privado, enquadrados em modelos de financiamento
que vão desde o Orçamento Fiscal da União,
o Programa Piloto de Investimento (PPI), as Parcerias Público-Privadas
(PPP), linhas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social (BNDES) e também fundos de investimentos
constitucionais e privados.
"Nossa agenda para o setor é pesada, porque
a infra-estrutura em boas condições é
pressuposto para o crescimento que vem sendo projeto para
os próximos anos", afirma Paulo Sérgio
de Oliveira Passos, ministro dos Transportes. Segundo ele,
o ministério obteve a partir de 2005 recursos mais
condizentes com as necessidades do país. Foram R$
6 bilhões no ano passado e R$ 4 bilhões até
outubro de 2006. Em 2007, o Ministério dos Transportes
deve trabalhar com R$ 5,5 bilhões. No entanto, essa
faixa pode aumentar em até 100%, com o enquadramento
de projetos no PPI.
A projeção de investimentos nas rodovias,
o modal de maior peso no país - 58% da movimentação
- é de R$ 12 bilhões para a recuperação
e conservação e mais R$ 12 bilhões
para ampliação de estradas. Nesses valores,
estão incluídos recursos públicos e
privados, em modelos de concessões ou PPPs. Está
em andamento o processo de licitação para
a concessão de 2600 km de rodovias federais
A expectativa é de que os editais incorporem avanços
e atraíam investidores. "Há liquidez
no mercado internacional para investimentos em infra-estrutura",
diz Moacyr Duarte, presidente da Associação
Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR).
Para ele, existe interesse nos empreendimentos por parte
de investidores nacionais e internacionais. "A experiência
de 10 anos de operação privada pode ser considerada
positiva, com superação dos problemas de ordem
jurídica".
Considerado como prioridade, o modal rodoviário foi
o que obteve mais recursos do governo até agora.
E é usado pelo ministro como comprovação
da mudança de patamar para os investimentos públicos.
"Saímos de R$ 700 milhões por ano entre
2000 e 2004 para R$ 2 bilhões a partir de 2005",
diz Paulo Sérgio Passos.
Apesar de ressaltar que ainda há muito a ser feito,
ele aponta que nos últimos três anos foram
recuperados 13,8 mil km de estradas, conservados mais 38,4
mil km e implementada a sinalização de 40,1
mil km, incluindo 19,7 mil km de sinalização
do Prosinal -programa específico para sinalização
das rodovias federais, que inclui ações de
sinalização horizontal como instalação
de "tartarugas" e reforço na pintura das
faixas.
O Programa Emergencial de Trafegabilidade e Segurança
nas Estradas (Petse), apelidado de operação
tapa-buracos, iniciado em janeiro deste ano, também
é citado como medida importante de recuperação
da infra-estrutura. "Apesar das críticas, a
implementação do programa está cumprindo
seu indiscutível papel emergencial", afirma
o ministro.
A segunda prioridade evidenciada por diversos segmentos
de usuários e operadores de transporte é a
dragagem e o aprofundamento de calado dos portos, para que
seja possível ampliar a capacidade de atracamento
de navios de maior porte na costa brasileira. Além
disso, outra grande reclamação são
os acessos aos portos, tanto por terra como por água.
Referendado pela Agenda Portos, criada em 2004 para analisar
e mapear necessidades para os 11 maiores portos brasileiros,
responsáveis por 95% das exportações
brasileiras, o diagnóstico norteia o investimento,
a partir do próximo ano, de R$ 1,45 bilhão
em dragagem, mais R$ 760 milhões em ampliação
da capacidade e R$ 290 milhões em acessos terrestres
e marítimos.
Nos últimos anos, os portos tiveram forte crescimento
de movimento. Entre 2001 e 2005, a carga geral saiu de 53
milhões de toneladas para 92,8 milhões de
toneladas e a movimentação de contêineres
saltou de 1,9 milhão de unidades para 3,6 milhões
de unidades. O Ministério dos Transportes informa
que os investimentos ficaram em R$ 150 milhões entre
2003 e 2006.
Pelo lado das ferrovias, o mérito fica por conta
da iniciativa privada. Apesar de ainda desbalanceada, a
matriz de transporte já conta com 25% da participação
das estradas de ferro para movimentação de
cargas, graças ao crescimento de 73% na produção
ferroviária desde 1997, ano do início do atual
modelo de concessão da malha, de 28 mil km. A Associação
Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF),
estima que a produção ferroviária vai
atingir 237,7 bilhões de TKU (tonelada por quilômetro
útil) em 2006.
As melhorias que permitiram esse avanço foram feitas,
na maioria, com dinheiro privado. Entre 1997 e setembro
de 2006, a ANTF contabiliza investimentos de R$ 11,4 bilhões
pelas 11 operadoras, ante R$ 500 milhões da União
no mesmo período.
O governo parece disposto a resgatar o tempo perdido. O
"pacote de bondades" para a infra-estrutura da
ministra Dilma Roussef acena com R$ 2 bilhões para
recuperação e adequação da capacidade
e mais R$ 12 bilhões para ampliação
da ferrovia nos próximos anos. "Caso sejam efetivados,
os projetos do governo irão eliminar gargalos importantes",
diz Rodrigo Vilaça, diretor-executivo da ANTF.
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