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Publicação da Agência
Carta Marior de 14 de dezembro de 2006
Marco regulatório é aprovado
e aumenta demanda por recursos
BRASÍLIA – Resta apenas a
assinatura presidencial para que o Brasil volte a ter, 21
anos depois da extinção do Banco Nacional
de Habitação (BNH), um marco regulatório
para a área de saneamento básico. O Projeto
de Lei 7361/06, de autoria do Senado, foi aprovado sem modificações
no Plenário da Câmara, na noite desta terça-feira
(12). Um acordo que prevê o veto do presidente ao
dispositivo que prevê a elaboração de
leis estaduais que estabelecem o saneamento como “função
pública de interesse comum” foi firmado entre
as lideranças para que a votação transcorresse
sem sobressaltos. De acordo com um dos líderes da
oposição – Rodrigo Maia (PFL-RJ), filho
do prefeito do Rio de Janeiro, César Maia –
a edição dessas leis estaduais poderia acabar
restringindo o papel dos municípios no contexto da
política nacional.
A disputa pela titularidade entre companhias
estaduais e prestadoras de serviço municipais ocupou
posição central durante todo o processo de
construção do novo marco regulatório.
Essa queda de braço, diga-se, sempre foi entendida
como o principal empecilho para a elaboração
de um arcabouço legal para o setor. O projeto aprovado
não exclui nenhuma das modalidades já existentes
e contempla tanto os modelos regionais, com base na assinatura
de contratos firmados entre empresas de dimensão
estadual com cada município (veja matéria
sobre o acordo na comissão especial que deu contornos
finais do projeto). De acordo com a lei, o poder público
também poderá terceirizar a prestação
dos serviços de saneamento básico. Os contratos
com a iniciativa privada dependerão da elaboração
de um plano de saneamento específico e os subsídios
serão instituídos para os usuários
e localidades que não tenham condições
de cobrir o custo integral dos serviços.
O novo marco regulatório incorpora
a concepção ampliada do saneamento básico
que inclui abastecimento de água, esgotamento sanitário,
manejo de resíduos sólidos e drenagem de águas
pluviais. Um dos pontos fundamentais destacados no documento
da Frente Nacional de Saneamento Ambiental (FNSA), que reúne
diversas organizações sociais ligadas ao tema,
consiste na “inclusão do planejamento como
ferramenta fundamental para o desenvolvimento de ações
de saneamento básico de modo a permitir a qualificação
e eficiência no gasto público bem como as sustentabilidade
e perenidade dos projetos de saneamento”. A lei prevê
a definição de um Plano Nacional de Saneamento
Básico (PNSB), com horizonte de 20 anos e revisões
periódicas a cada quatro anos, que estabelecerá
metas nacionais e regionais para a universalização
dos serviços de saneamento. Também define
formas de controle social por meio de órgãos
colegiados consultivos de fiscalização para
definição de tarifas e de transparência
na divulgação de dados e informações
com a instituição do Sistema Nacional de Informações
de Saneamento Básico (Sinisa).
Apesar de algumas medidas bastante complicadas
como a transferência de responsabilidade de determinadas
categorias de resíduos sólidos das empresas
produtoras do lixo para as prefeituras, o marco define uma
série de isenções – como a do
Pis/Pasep e da Cofins - para quem investir no setor, além
de autorizar a dispensa de licitação para
contratação de associação ou
cooperativa de catadores de materiais recicláveis.
Investimentos
A aprovação do marco regulatório pode
ajudar a abrir portas para novos investimentos privados
na carente área de saneamento básico (há
coleta de esgoto em apenas 50% das áreas urbanas
do País - leia matéria), mas a expectativa
dos principais atores do setor estava mesmo voltada para
o resultado da reunião específica sobre infra-estrutura
convocada pelo presidente Lula no Palácio do Planalto
(leia também: ) Explica-se: já existem recursos
específicos na Caixa Econômica Federal e no
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES), isto é, dentro da própria estrutura
pública, para investimentos no setor. “Essa
é a diferença da aprovação do
marco regulatório do saneamento as PPPs [Parcerias
Público-Privadas]. Já existem recursos em
abundância nos bancos públicos que não
são utilizados por uma série de regras”,
diferenciou a secretária nacional de Programas Urbanos
do Ministério das Cidades, Raquel Rolnik. A pasta
sugere, por exemplo, a ampliação do empréstimo
da Caixa para o setor de saneamento, que hoje é de
45% do Patrimônio Líquido de Referência
(PLR) do banco.
As empresas do setor investem em dois flancos.
De um lado, pedem menos burocracia no processo de financiamento
de projetos. De acordo com Marcos Abicalil, da Associação
das Empresas de Saneamento Básico Estaduais (Aesbe),
leva-se apenas para o período de seleção
e contratação dentro do Ministério
das Cidades cerca de um ano. Dentro da Caixa, o projeto
permanece ainda mais um ano até que o recurso seja
de fato liberado.
Irmanados, todos os envolvidos com saneamento
pedem a ampliação os investimentos do Orçamento
Geral da União (OGU) e pedem a flexibilização
dos mecanismos de acesso a financiamentos para o setor,
principalmente para os operadores públicos (municipais
e estaduais), engessados pelo limite imposto pela rigidez
da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). A Aesbe propõe
a criação de um sistema de seleção
de empresas públicas mediante condições
restritivas – desde a estrutura societária
até a forma de governança - para autorizar
novos investimentos que não sejam contabilizados
como despesa no cálculo fiscal dos entes federativos
a que estão vinculadas. “Se os mesmos critérios
fossem aplicados n a União, os Correios seriam autorizados
a contrair empréstimos e a Embrapa [Empresa Brasileira
de Pesquisa Agropecuária], não”, exemplifica
Abicalil.
A secretária Raquel Rolnik espera
que haja uma repetição da autorização
concedida em 2004, quando o Ministério das Cidades
conseguiu arrancar R$ 3 bilhões de investimentos
do setor público (leia matéria), mas em outra
escala. “A proposta agora é de R$ 10 bilhões
adicionais”. Dado o esforço dos mais diferentes
segmentos da sociedade para a consolidação
de conquistas de relevo - como a aprovação
do marco legal do saneamento, os cinco anos do Estatuto
da Cidade, e a sinalização inequívoca
da prioridade ao setor de infra-estrutura manifestada pela
reunião desta terça-feira (12) convocada pelo
presidente -, ela acredita que o País está
finalmente vivendo uma conjunção favorável
que poderá se refletir na melhoria das condições
de vida dos brasileiros.
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