Demora em decisão sobre gestor de fundo desagrada
Ygor
Salles
BNDES
e Banco do Brasil são os favoritos a assumir gestão
Os potenciais investidores das parcerias público-privadas
(PPPs) ficaram decepcionados com a resolução
tomada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) sobre
o Fundo Garantidor de Parcerias (FGP) do governo federal.
A resolução, tomada pelo CMN no final de maio
e publicada no Diário Oficial da União (DOU)
da última terça-feira, diz que a administração
do FGP só poderá ser exercida por um banco controlado
direta ou indiretamente pelo governo federal.
Porém, esta mesma determinação já
estava tomada. Trata-se do Artigo 17 da Lei das PPPs, sancionada
pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva em dezembro
do ano passado.
A única mudança é que o banco deve ser
autorizado pela Comissão de Valores Mobiliários
(CVM) para o exercício de administração
de carteira de valores mobiliários, além de
ter que observar as normas do CVM relativas à administração
da carteira.
A medida não tem efeito prático porque os oito
bancos controlados pelo governo federal — Banco do Brasil,
Caixa Econômica Federal, Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES), Banco da Amazônia,
Banco do Nordeste, Banco do Estado de Santa Catarina (BESC),
Banco do Estado do Piauí (BEP) e Banco do Estado do
Ceará (BEC) — possuem tal autorização.
“É uma norma redundante, portanto não
precisava ter sido criada”, criticou Cristina Alckmin
Lombardi, especialista em PPP da Leite, Tosto e Barros Advogados
Associados.
“Esperava-se muito mais desta resolução,
como a definição de qual seria o banco administrador
das garantias e o que mais formaria a mesma além das
ações definidas em abril”, informou.
“Era esperado que o decreto trouxesse a governança
do fundo, ou seja, como seria a estrutura de controle dele.
Mas quem vai definir isso é o comitê gestor,
que por sua vez parece não ter ”, disse Marcus
Vinícius Pulino, da Levy & Salomão Advogados.
Dos R$ 6 bilhões que formarão o FGP, só
se sabe que R$ 4 bilhões serão formados por
uma carteira de ações que o governo federal
possui, que foram anunciados no início de abril. Os
outros R$ 2 bilhões ainda estão indefinidos.
“Também não adianta nada saber qual será
o administrador se não souber antes o que vai ser gerido”,
criticou Cristina.
Ratificação
Segundo a Secretaria do Tesouro Nacional — área
do Ministério da Fazenda incumbida de controlar as
regulamentações em torno da parte financeira
das PPPs — a medida foi tomada apenas para “ratificar”
o que estava definido na lei.
“De agora em diante, com esta ratificação
feita pelo CMN, buscaremos decidir qual será o banco
gestor”, disse Carmem Delpino, coordenadora do Tesouro
Nacional.
Ela não quis dar um prazo para a escolha do banco.
“Tudo depende dos estudos do Comitê Gestor, e
eles não têm prazo definido por enquanto”,
disse Carmem. A expectativa é que o comitê gestor
tome esta decisão até o final da semana.
Briga política
A disputa em torno de qual será o banco que administrará
o FGP tem natureza política, segundo especialistas.
Um grupo dentro do governo federal defende que o BNDES, presidido
por Guido Mantega, deve ser o administrador, já que
sua função o faz ficar mais próximo dos
investidores, o que daria mais segurança e agilizaria
as parcerias. Este é também o pensamento da
maioria dos potenciais investidores, preocupados com a burocracia
que se formaria caso o Banco do Brasil assumisse o FGP.
Outro grupo, formado majoritariamente pela equipe econômica
do governo, prefere o Banco do Brasil porque o BNDES teria
função dupla — administração
e financiamento — das PPPs, o que poderia gerar conflitos
de interesse.
“O BNDES seria a escolha natural, mas o Banco do Brasil
tem força e a Caixa Econômica Federal também,
mas esta correndo por fora na disputa”, avaliou Cristina.