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Publicação da Folha de São
Paulo de 12 de janeiro de 2007
Governo nega viés estatizante em
rodovia
VALDO CRUZ
PEDRO DIAS LEITE
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA Depois de
suspender o processo de concessão de rodovias federais,
o governo acredita ter chegado a um entendimento com empresários
do setor para fixar pedágios que garantam uma taxa
de retorno de investimentos entre 12% e 13% às empresas.
A retomada do processo, porém, só será
decidida após o lançamento do PAC (Plano de
Aceleração do Crescimento), no próximo
dia 22.
O governo adiou a licitação
de concessão, que estava programada para sair em
dezembro, porque recebeu informações de que
algumas empresas ameaçavam até boicotar o
processo caso não fossem aceitas regras permitindo
uma taxa de retorno de investimento mais alta, na casa dos
17%. O edital de concessão dos sete trechos de rodovias
prevê uma taxa de retorno de 12,88%.
Em conversas com ministros ontem, empresários
do setor também ouviram a promessa de que não
está nos planos do governo criar uma empresa pública
para administrar rodovias federais.
Por outro lado, apesar de aceitarem uma
taxa entre 12% e 13% na maior parte dos casos, disseram
não ser possível tabelá-la, já
que deve ser definida de acordo com a estrada. Em alguns
casos, de alto risco, pode ter de chegar a 15%.
O presidente da Abdib (Associação
Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base),
Paulo Godoy, afirmou que os ministros Dilma Rousseff (Casa
Civil) e Paulo Bernardo (Planejamento) lhe disseram que
o governo não quer abrir mão do setor privado
nos investimentos em rodovias.
Na terça-feira, o governo divulgou
que havia adiado o processo de concessão de sete
trechos de rodovias (2.600 quilômetros), entre elas
a Régis Bittencourt (São Paulo-Curitiba) e
a Fernão Dias (São Paulo-Belo Horizonte).
A decisão provocou mal-estar no
mercado e foi vista com uma possibilidade de recaída
estatizante do governo Lula, já que havia circulado
a informação de que a cobrança de pedágio
nessas rodovias poderia ser feita pela União.
Preocupado com a repercussão negativa,
no mesmo momento em que o presidente Hugo Chávez
(Venezuela) anunciou sua disposição de estatizar
setores de telefonia e energia, o governo agendou conversas
com representantes da área para evitar uma crise.
Depois de uma reunião de quase duas
horas com Dilma, Godoy anunciou que a questão só
será definida depois do lançamento do PAC
e criticou qualquer tentativa de manter o controle das estradas
com o setor público.
"Você imaginar que o governo
vai administrar uma praça de pedágio com mais
eficiência do que a iniciativa privada é discordar
de todo o passado", afirmou Godoy, que se disse "um
pouco mais tranqüilo" após a reunião
com o governo.
"Há um frisson a respeito do
assunto, mas não há motivo para apreensão."
O empresário afirmou que Dilma quer a participação
da iniciativa privada nas rodovias e esclareceu que "não
há nenhum tipo de componente ideológico"
na decisão de suspender as concessões.
Apesar de ter dito que trabalha para chegar
a uma solução com o governo, o empresário
afirmou que a demora pode levar a um novo problema, porque
as estradas se deteriorariam ainda mais sem investimentos,
o que levaria a um custo mais alto para recuperá-las
e, logo, maior preço de pedágio.
"Tem de ser em curto prazo de tempo.
Ou com uma solução através da concessão
ou de PPP [Parceira Público-Privada]. Ou então
o governo tira recursos do Orçamento para fazer",
disse, ressaltando que a União não tem esse
dinheiro. Seriam necessários cerca de R$ 20 bilhões
para os sete trechos.
Dilma não deu entrevista depois
da reunião, mas o empresário afirmou que há
"desconforto" no governo em relação
às tarifas.
A avaliação é que,
no passado, com juros e risco Brasil elevados, fazia sentido
definir uma taxa de retorno de investimentos de até
19%. Hoje, porém, num cenário econômico
diferente, o governo avalia que não deve superar
13%.
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