Concessão da BR-163 atrai candidatos de várias áreas
Paulo
Henrique de Sousa - Pelo menos um consórcio já
está sendo formado para disputar a concessão
para construção e exploração dos
1569 quilômetros da BR-163 entre Nova Mutum (MT) e Santarém
(PA), estimada em pouco mais R$ 1 bilhão.
O
secretário estadual de Infra Estrutura do Mato Grosso,
Luiz Antônio Pagot, informou que um grupo de empresas
já assinou um protocolo de intenções
para a formação do consórcio. Entre elas
estão grupos ligados ao agronegócio, como Bunge,
Cargill, Maggi (que pertence ao governador Blairo Maggi) e
Cooperativa Agroindustrial do Centro Oeste do Brasil (Coabra),
além de empresas do pólo industrial de Manaus
e de construção, como Votorantim. Ainda nesta
semana, representantes das empresas vão se reunir em
Brasília para formalizar juridicamente o consórcio.
As
empresas envolvidas na negociação não
falam sobre o assunto, mas todas têm interesses diretos
na construção da rodovia. As do agronegócio
estão interessadas no escoamento da safra de soja,
assim como os grandes produtores rurais da região,
que também deverão participar do negócio,
por meio das cooperativas.
Pagot
avalia que a rodovia também vai contribuir muito para
aumentar a competitividade das indústrias da região
de Manaus. O tempo de transporte dos produtos da capital do
Amazonas até São Paulo poderá ser reduzido
em até seis dias. Segundo o secretário, até
mesmo o transporte de produtos básicos (como arroz,
milho, algodão e carnes) para o Nordeste deverá
ficar mais barato com a nova rota.
A
estrada é importante para o Norte do país, principalmente
para escoar a produção agrícola da região.
Atualmente, os caminhões carregados com soja para exportação
têm duas opções: ou o porto de Santos
(SP), ou o de Paranaguá (PR). Com a BR-163 pavimentada
até Santarém, o custo poderá cair bastante,
já que a soja poderá ser embarcada de um porto
mais próximo do país de destino. Segundo especialistas,
isso daria ainda mais competitividade à soja brasileira
no mercado externo.
O
secretário de Agricultura do Mato Grosso, Antônio
Pivetta, disse que a intenção é repetir
na BR-163 o mesmo modelo implementado pelo governo do estado
na pavimentação de 1.300 quilômetros de
estradas estaduais. A chamada "PPP caipira" foi
desenvolvida em parceria do governo com grandes produtores
rurais, que dividiram os investimentos - metade para cada
parte. Depois de pavimentadas, as estradas passaram a cobrar
pedágio. Segundo Pivetta, o mesmo pode ser feito na
BR-163, em uma escala muito maior.
Mas
a decisão do governo federal de fazer as obras da BR-163
em regime de concessão convencional gerou uma certa
polêmica no setor de construção. O receio
de algumas pessoas ligadas à indústria da construção
é de que o preço do pedágio teria que
ser muito alto para que as empresas pudessem ter o retorno
do investimento.
"Não
vejo viabilidade porque não tem um grande volume de
tráfego", criticou o presidente da Associação
Nacional das Empresas de Obras Rodoviárias (Aneor),
José Alberto Pereira Ribeiro. A alternativa, segundo
ele, seria fazer a obra em regime de Parceria Público-Privada
(PPP).
A
concessão da BR-163 tem uma outra peculiaridade: diferentemente
de outras concessões de estradas em que o governo executava
a obra e só depois a repassava para a iniciativa privada,
na BR-163 é o capital privado que vai construir a estrada.
Uma fonte de uma grande construtora disse que as empresas
podem não se interessar em tocar a obra sem a participação
de dinheiro público, já que o tráfego
de veículos não justificaria um investimento
tão elevado. Segundo a fonte, um relatório anterior
do governo estimara a obra em US$ 200 milhões para
ser executada em regime de PPP. "Como é que, agora,
com R$ 1 bilhão, a obra pode ser feita com concessão
simples? Não vai ter interessado", disse.
O
Ministério dos Transportes contratou o Instituto Militar
de Engenharia (IME) para fazer o mais recente estudo de viabilidade
técnico-econômica e definir o Programa de Exploração
da Rodovia (PER). Ribeiro considera muito alto o pedágio
de R$ 7,60 definido pelo IME - haverá 11 postos de
pedágio ao longo dos 1.500 quilômetros do trecho
a ser concedido, três a partir do final do primeiro
ano depois da conclusão da obra e oito no final do
terceiro ano. Com essa tarifa, o IME calculou a taxa interna
de retorno (TIR) do capital investido de 18%, nos primeiros
dez anos, e de 20%, em 25 anos.
Além
disso, o presidente da Aneor também questiona algumas
projeções feitas pelo IME. Para ele, as estimativas
de aumento de tráfego na BR-163 para os próximos
anos são "muito otimistas" e só assim
justificariam uma taxa de retorno do capital tão elevada.
Mas
Pagot rechaça tais críticas. Ele argumenta que
as empresas do agronegócio garantem um fluxo de tráfego
compatível com os investimentos necessários
para construir a estrada.
A
assessoria do Ministério dos Transportes informou que
o governo só vai se manifestar na audiência pública
marcada para a próxima terça-feira . Até
o dia 9 de outubro, as empresas interessadas devem apresentar
os documentos de habilitação para disputarem
a licitação, cujo edital deve ser publicado
em novembro.