Regulação, juro e segurança intimidam fundos de pensão
Clarissa
Wahl - Planejamento considera a hipótese de elevar
fundo garantidor
Redução da taxa de juros, maior transparência
regulatória e segurança para investir no longo
prazo. Essas são as principais preocupações
dos fundos de pensão, maiores investidores institucionais
do País, em relação aos projetos de parcerias
público-privadas (PPPs), e identificadas por estudo
encomendado por dez fundações à consultoria
Trevisan Associados .
“Ao observar as taxas de juros, os fundos ainda não
se sentem atraídos em investir em projetos que trazem
maior risco e podem -ao menos em um primeiro momento –
não ter um retorno tão atrativo quanto o dos
títulos do governo”, disse o diretor da Petros
, Ricardo Malavazi. “Sabe-se que a Selic não
vai ficar nesse patamar por muito mais tempo. Mas, quando
essa redução se dará?”.
Na avaliação do diretor do departamento de PPPs
e Fundos de Pensão da Trevisan, Luiz Guilherme Raposo,
apesar das incertezas, esse é o momento para os fundos
começarem a idealizar suas participações
nesses projetos. “Pesquisas de mercado apontam que não
deve demorar muito para que as taxas de juros caiam, favorecendo
investimentos no setor de infra-estrutura”, disse ele.
Apesar das dúvidas ainda não respondidas, o
diretor da Trevisan disse que, em relação à
legislação que trata das parcerias, a pesquisa
a considerou consistente. “Nenhum dos países
da Europa ou América do Sul que foram alvo de nossa
pesquisa ofereciam aos investidores, por exemplo, um fundo
garantidor. Essa é uma inovação brasileira.”
Os projetos devem ser, ainda, uma opção para
os fundos pulverizarem suas carteiras. “Os fundos de
pensão que investem em infra-estrutura o fazem, hoje,
através de papéis de empresas do setor de telecomunicações
e energia. Com a aprovação das PPPs, essas entidades
terão um maior leque de setores para aplicar, o que
deverá ajudar na mitigação dos riscos”,
disse Raposo.
Em relação ao fundo garantidor, há sinais
de que, no Ministério do Planejamento, a equipe comandada
pelo ministro Paulo Bernardo estuda um aumento do montante
de R$ 6 bilhões assegurado aos investidores. Segundo
o chefe adjunto da assessoria econômica do Ministério
do Planejamento e coordenador de Projetos da Unidade PPP,
Antônio Henrique Silveira, apesar de ainda não
haverem uma decisão oficial sobre uma possível
elevação do valor do fundo, a depender do comportamento
dos investidores, esse montante pode ser revisto.
“Para tanto, precisaria haver uma alteração
na Lei 11.079, que prevê ao fundo um valor máximo
de R$ 6 bilhões”, disse Antonio Silveira. Entretanto,
segundo ele, até que os primeiros projetos de PPPs
sejam iniciados, o fundo já deverá estar com
um valor maior, por conta da rentabilidade das ações
ali depositadas.
Na visão do diretor da Mercer Investment Consulting
, Thyrso Ferrato, se os maiores fundos de pensão estudam
investir seus recursos em parcerias no setor de infra-estrutura,
não é o que acontece junto às fundações
de menor porte. “A preocupação imediata
dessas entidades é aplicar em carteiras que garantam
boa rentabilidade sem dose de risco excessivo”, disse
Thyrso Ferrato.
Entretanto, ele disse que os fundos de médio e pequeno
porte devam continuar fora do círculo de fundações
interessadas nos projetos de parceria público-privadas.
“A participação dessas entidades está,
antes de mais nada, sujeita à redução
da taxa de juros. Afinal, hoje a Selic está em 19,75%
e, no ano, os juros reais devem ficar em 13%”, disse
o diretor da Mercer Investment.
Segundo os fundos de pensão, o juro elevado não
é o único entrave para a participação
nas PPPs. No entendimento do chefe do departamento de planejamento
do Fapes , fundo de pensão patrocinado pelo Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) , Cláudio
Costa do Nascimento, há ainda questões regulatórias,
de diversos setores, ainda não resolvidas.
“O setor de energia, por exemplo, é o único
cujas regras estão bem definidas. No restante dos segmentos,
ainda há muita indefinição”, disse
Nascimento. Ele cita, como exemplo, um projeto de PPP no setor
de transportes. “Ao se investir em uma parceria para
construção de uma rodovia, por exemplo, o investidor
sabe que sua única fonte de receita serão os
pedágios. Mas, como será feita a correção
da tarifa cobrada dos motoristas? De quanto em quanto tempo
esses pedágios serão corrigidos? Se houver divergência
em relação à essas questões, em
qual fórum as partes envolvidas irão discutir?”
O Fapes acumula patrimônio de R$ 3,6 bilhões
e, hoje, já investe em carteira de infra-estrutura.
“Aplicamos nos setores de Energia e Transportes, e queremos,
sim, investir em PPPs. Mas tudo depende de como vier a regulamentação”,
disse ele.
Fundo garantidor
Resolução do Conselho Monetário Nacional
(CMN) publicada ontem determina que um banco estatal vai administrar
o fundo garantidor das parcerias público-privadas (PPPs).
O fundo, de aproximadamente R$ 6 bilhões, garantirá
a rentabilidade ao investidor privado. Para técnicos
do governo, tudo indica que o escolhido será o Banco
do Brasil.