Garantia lidera consultas de investidores nas parcerias
Os investidores aumentaram
suas consultas sobre os investimentos através das parcerias
público-privadas (PPPs) nos últimos meses, segundo
consultorias que trabalham no setor.
Porém, o principal motivo das consultas é causado
pela desconfiança em relação às
garantias que os governos darão para manter seus compromissos.
As indefinições quanto às garantias que
serão dadas pelos governos ainda incomodam os investidores.
“As preocupações deles sempre começam
pelas parcerias. E nem sempre é pelo que forma a garantia
e como será gerido, e sim pelo mecanismo de utilização”,
explicou o advogado Gustavo Rocha, especialista em PPPs do
escritório Azevedo Sette Advogados .
“Ainda não ficou muito claro como e em quanto
tempo o investidor terá o direito de tomar posse sobre
o que foi dado de garantia pela obra ou pela prestação
do serviço de manutenção”.
Se depender dos governos estaduais e do governo federal, a
dúvida persistirá por mais algum tempo. Nenhum
ainda escolheu um banco gestor para as parcerias, por exemplo.
O único que tem alguma definição sobre
o tema, a Bahia, preferiu manter o fundo garantidor nas mãos
do próprio tesouro estadual. “O fundo será
diretamente vinculado ao estado, e em cada obra terá
especificado o que formará a garantia”, explicou
o secretário de Fazenda da Bahia, Albérico Mascarenhas.
Em exemplo é o novo emissário submarino da Grande
Salvador, que deverá ser a primeira obra através
de PPPs no estado e cuja construção deverá
custar R$ 150 milhões. Neste caso, as garantias serão
formadas pelos recebíveis da Empresa Baiana de Águas
e Saneamento (Embasa) .
“Com o novo emissário, a Embasa poderá
cobrar pela coleta de esgoto em mais pontos, e a renda disso
fará parte das garantias. E assim será com todas
as demais, utilizando alguma renda que seja criada com a nova
obra”, disse o secretário baiano.
No governo federal, a definição do banco gestor
e o que formará o Fundo Gestor de Parcerias (FGP) deverá
sair de uma reunião do Comitê Gestor que acontecerá
ainda neste mês.
Ainda falta definir o que formará os R$ 2 bilhões
restantes do fundo, já que os outros R$ 4 bilhões
foram apresentados em junho, composto basicamente de ações
de empresas que estavam sob o poder do governo federal, e
considerados de boa aceitação no mercado.
“Juridicamente, a escolha do banco gestor pouco importa,
mas politicamente há diferenças sobre a relação
com o investidor”, disse Gustavo Rocha.
Um grupo defende que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social (BNDES) , presidido por Guido Mantega, deve ser o
administrador, pois sua função o faz ficar mais
próximo dos investidores. Este é também
o pensamento da maioria dos potenciais investidores, preocupados
com a burocracia que se formaria se o Banco do Brasil assumisse
o FGP.
Outro grupo, formado majoritariamente pela equipe econômica
do governo, prefere o Banco do Brasil porque o BNDES teria
função dupla — administração
e financiamento — das PPPs, o que poderia gerar conflitos
de interesse.
Quando se trata das obras que deverão ser feitas através
das PPPs, os potenciais investidores também aumentaram
o número de consultas.
“Eles geralmente se interessam por dois tipos de obras,
aqueles onde a concessão comum deu bons resultados,
como as rodovias, e onde não há costume de se
investir em conjunto, como em hospitais”, afirmou Rocha.
Outros setores que também interessam são os
de saneamento, segurança (especialmente presídios)
e de irrigação, embora estes sejam serviços
majoritariamente públicos no País.
“Em saneamento, por exemplo, são poucos os locais
onde o serviço é privatizado e daria para ter
uma idéia da lucratividade. Mas eles parecem interessados”,
explicou Rocha.
Para o especialista em infra-estrutura José Virgílio
Lopes Enei, da Machado, Meyer, Sedacz e Opice Advogados ,
transportes acaba levando vantagem devido ao bom resultado
das concessões comuns realizadas.
“Transportes, seja qual for o tipo, larga na frente
porque a chance de o investidor conseguir o retorno com a
administração da obra, sem precisar de contrapartida
do governo, é grande”, explicou. “Não
há concessionária que tenha prejuízo”,
disse.