A
pregação de parcerias entre governos e a iniciativa
privada começou a ganhar consistência somente nos
anos 90, e volta e meia ainda é bombardeada como tentativa
estatal de se desobrigar de suas atribuições
O
ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, voltou
a apontar ontem o programa Parceria Público-Privada (PPP)
como importante para a retomada do desenvolvimento regional.
Depois de qualificar a herança do governo anterior de
"legado macabro", o ministro admitiu prejuízos
a setores do País em razão da necessidade de economia
nos gastos do governo federal para o pagamento de dívidas.
A pregação de parcerias entre governos e a iniciativa
privada começou a ganhar consistência somente nos
anos 90, e volta e meia ainda é bombardeada como tentativa
estatal de se desobrigar de suas atribuições.
Até o PT chegou a demonstrar resistência no passado.
Se conseguiu reformar o conceito, melhor para a sociedade.
O programa PPP está sendo elaborado pelo Ministério
do Planejamento desde o final do governo anterior. Em resumo,
a União quer levantar R$ 30 bilhões anuais nas
empresas privadas para investimentos diretos. O empresário,
depois de investir em determinada obra ou serviço, passa
a explorá-la(o) por um tempo apontado em contrato. E
posteriormente a(o) transfere para o poder público.
Como o ministro Ciro Gomes afirmou ontem, é necessário
marco regulatório moderno e confiável: capitalismo
- geralmente - implica risco, mas nenhum empresário vai
colocar dinheiro em negócios sem regras claras. Para
a adoção do PPP, será preciso alterar a
Lei de Licitações (não existe como encaixar
o programa na Lei das Concessões) e flexibilizar as previsões
orçamentárias dos governos, seja federal, estadual
ou municipal.
Com o PPP, aumenta possibilidade de retomada de investimentos
em obras e serviços públicos. Mesmo que as restrições
orçamentárias impostas pelo governo federal na
obstinação de conquistar superávits sejam
eliminadas, ainda assim a capacidade estatal de investimento
seria reduzida. Municípios e Estados, longe de demonstrarem
o mesmo ímpeto pró-superávit, sofrem de
anemia orçamentária. Onde buscar o dinheiro então?
Nos outrora abundantes financiamentos externos a fundo perdido?
Quem preferir, fique com tais ilusões, convivendo com
índices deficientes de saneamento básico, estradas
precárias, para citar exemplos familiares a Santa Catarina.
Governos precisam é definir regras justas e não
transformar as parcerias em mamatas para empresários
atrás de lucro fácil.
Em artigo publicado no início de setembro, o professor
Floriano de Azevedo Marques Neto, da Universidade de São
Paulo, elogiou o PPP, mas não apontou o programa como
responsável pela solução da crise de investimento
reinante no País. O raciocínio está correto:
não são simples modificações legais
a se constituírem em mecanismos de eliminação
de entraves estruturais. No entanto, o PPP pelo menos não
deixa de significar o reconhecimento da necessidade de criatividade
e bom senso na busca dos recursos para investimentos tão
vitais para a União, Estados e municípios. Ainda
serão necessários muitos ajustes para moldar o
caminho, mas pelo menos o governo federal pode estar mirando
na direção correta.
Editorial