Utilização da PPP no setor de transportes
Por
Antonio Corrêa Meyer e José Virgílio Lopes
Enei
A participação crescente de agentes econômicos
privados na construção, implementação
e administração de serviços que o Estado
já não consegue explorar eficientemente é
fundamental para o desenvolvimento do país. Nesse contexto,
a parceria público-privada (PPP) busca viabilizar investimentos
que, de outra forma, nem o Estado nem os modelos tradicionais
de concessão e licitação de obra seriam
capazes de fazê-lo. A PPP pode propiciar ainda não
só uma economia ao Estado, como também a comodidade
ao usuário final de um serviço essencial prestado
com mais eficiência pelo parceiro privado. Note-se a
esse respeito que, segundo o conceito básico de PPP,
a remuneração do investidor é vinculada
à qualidade do serviço por ele prestado à
sociedade.
O
setor de transportes, ao lado do saneamento, tende a ser um
dos mais beneficiados com as parcerias público-privadas.
Existem inúmeras possibilidades de envolvimento do
setor privado no financiamento, construção,
operação e manutenção de rodovias,
portos, aeroportos, ferrovias e linhas de metrô, além
de serviços auxiliares.
A
experiência internacional revela PPPs bem sucedidas
no setor de transporte. Só a Inglaterra contabiliza
pelo menos 40 projetos nesse setor. Outros países,
como Portugal, lograram grande expansão na sua malha
rodoviária graças a modelos de PPP inovadores,
como é o caso do chamado "pedágio sombra",
onde o Estado remunera o investidor privado de acordo com
o número de usuários. No Chile, fala-se em uma
verdadeira revolução viária propiciada
pelas parcerias público-privadas.
No
caso do Brasil, as PPPs devem ter como uma de suas prioridades
estimular o desenvolvimento dos corredores multimodais de
transportes, permitindo um aproveitamento mais eficaz de hidrovias,
ferrovias e portos. Quase 90% da produção agrícola
brasileira é transportada precariamente pela infra-estrutura
existente, encarecendo o preço final dos produtos.
As
rodovias nacionais também merecem destaque. Foco de
privatizações no passado, a maior parte das
estradas federais existentes ainda continua carecedora de
investimentos na sua restauração e manutenção.
A expansão da malha também é urgente.
No
setor aéreo, a Infraero, empresa pública que
administra os aeroportos federais, já deu sinais claros
do seu interesse nas PPPs para atrair investidores interessados
na construção, ampliação e modernização
de terminais aeroportuários. Estima-se que os investimentos
possam chegar a R$ 1 bilhão nos próximos três
anos, com expectativa de projetos para quase 30 aeroportos
em diversas regiões do país.
No Brasil, as PPPs devem ter como uma de suas prioridades
estimular o desenvolvimento dos corredores multimodais
A
interligação de aeroportos com os centros urbanos
também pode ser objeto das parcerias público-privadas.
Um bom exemplo é o projeto de ligação
do Aeroporto de Guarulhos com o centro de São Paulo
por meio de uma linha de metrô. Um projeto semelhante
foi desenvolvido com sucesso na cidade de Londres através
da extensão de 4,4 quilômetros de linha de metrô
ligando o Aeroporto London City à estação
King George, projeto esse que viabilizou investimentos da
ordem de 115 milhões de libras, tendo a parceria público-privada
um prazo de 30 anos.
Além
disso, o conceito de aeroporto-indústria pode ser atrativo.
Trata-se de aeroportos exclusivamente voltados para operações
cargueiras de empresas estabelecidas dentro da área
aeroportuária. Verificam-se oportunidades nesta área
nos aeroportos de Confins, Viracopos, Galeão e São
José dos Campos. Este último já conta
com projeto elaborado pela Infraero no ano de 2003.
Investimentos
em áreas de grande concentração urbana
também merecem destaque especial. Metrôs e trens
urbanos são essenciais para melhoria do transporte
público e qualidade de vida nas grandes cidades brasileiras.
Exemplos
trazidos do exterior demonstram que também os serviços
associados ao setor de transporte podem ser explorados pelo
investidor privado em regime de parceria público-privada.
Exemplo disso é a inspeção veicular explorada
em regime de PPP na Inglaterra a um custo de 31 milhões
de libras e com prazo de dez anos. Por esse projeto, o investidor
é responsável pela realização
de inspeções veiculares e inclusão de
dados no sistema nacional da polícia britânica.
Outras parcerias firmadas envolvem o fornecimento de energia
elétrica para o metrô de Londres e o controle
de operações de tráfego aéreo
na Inglaterra.
O
modelo de licitação de obras públicas,
que exige o pagamento pelo Estado no curso da obra, encontra
sérias restrições na falta de recursos
orçamentários. Por sua vez, as privatizações
e as concessões de serviço público no
setor de transportes já foram implementadas onde se
mostravam viáveis. Diante do esgotamento desses modelos,
a parceria público-privada, embora não constituindo
uma garantia de sucesso nem uma solução milagrosa
para todos os problemas, talvez seja a única alternativa
capaz de assegurar a continuidade dos investimentos no setor
de transportes, que, como exposto, é estratégico
para o crescimento do país, para o escoamento da produção
de bens para e a diminuição do chamado custo
Brasil, revelando-se ainda essencial ao controle do caos urbano
nas grandes cidades, tão carentes de transporte público
eficiente.
VOLTAR