Quanto antes governo e oposição
despolitizarem o debate sobre o controvertido projeto das
Parcerias Público-Privadas (PPPs) tanto antes será
possível mapear com exatidão o território
das divergências substantivas sobre essa que é
a mais delicada matéria na pauta deste ano do Congresso
Nacional, por suas profundas implicações para
o relacionamento de longo prazo entre Estado e iniciativa
particular no Brasil. Tanto antes também será
possível buscar, se não uma convergência
de posições quanto ao que a proposta tem de
essencial, ao menos um entendimento para assegurar a sua tramitação
em ritmo compatível seja com a complexidade dos temas
por ela abrangidos, seja com a urgência em modernizar
a infra-estrutura nacional.
Não pode haver lugar,
nesse processo, nem para manobras protelatórias, de
um lado, nem para o recurso igualmente nefasto do rolo compressor,
de outro.
O primeiro passo é
descontaminar o assunto da radioatividade política
gerada pela explosiva acusação, em plenário,
do senador tucano Tasso Jereissati, de dedo apontado para
o petista Tião Viana, de que o projeto, "do jeito
que está" (isto é, como veio da Câmara),
"é roubalheira, é para o Delúbio
deitar e rolar". Em defesa do seu tesoureiro Delúbio
Soares - que não parece propriamente imerso em olor
de santidade -, o PT resolveu interpelar o senador no Supremo
Tribunal Federal. Na terça-feira, recebendo a solidariedade
dos colegas da oposição e do petista Cristóvam
Buarque, Tasso voltou a falar de Delúbio, "que
me foi dado a conhecer pela imprensa", e das PPPs em
um mesmo pronunciamento. A proposta, reiterou, tem "graves
falhas" e "abre uma janela enorme para a corrupção".
Mas ele não se furtou a indicar mudanças - que
precisam ser discutidas a saudável distância
das tribunas parlamentares e do espectro de tesoureiros excessivamente
desinibidos.
Verdade seja dita, ao mesmo
tempo que estimula os empresários interessados a pressionar
os senadores para que não retardem o andamento do projeto,
o Planalto tem demonstrado certa flexibilidade diante de algumas
objeções feitas, a exemplo daquela que aponta
o risco de que as PPPs sirvam para desatrelar o gasto público
dos rigorosos padrões estabelecidos na Lei de Responsabilidade
Fiscal. Basicamente, a oposição acusa o governo
de querer fazer das PPPs uma via de escape. O ministro do
Planejamento, Guido Mantega, anunciou que, na sua nova versão,
a proposta limitará os desembolsos da União,
Estados e municípios com as parcerias a um porcentual,
a definir, de suas receitas líquidas. Mas isso não
elimina as divergências nem sobre a forma de contabilizar
o dispêndio - de uma vez só, como dívida,
na contratação da obra ou serviço, ou
ano a ano, como despesa corrente - nem sobre o próprio
conceito de receita líquida.
No seu discurso, Tasso ressaltou
um aspecto muito visado das PPPs, e outro, de que pouco se
fala. O primeiro seria o fato de permitir o desrespeito à
Lei de Licitações, que estipula como critério
decisivo o menor preço. Pelo projeto das PPPs, a autoridade
licitante poderá, em cada caso, acrescentar exigências
que acabariam por viciar a competição, favorecendo
as grandes empreiteiras - ou quem o governo queira favorecer.
O segundo aspecto destacado pelo senador é o do grau
de participação dos bilionários fundos
de pensão estatais - que se converteriam no principal
parceiro dos governos sob as futuras regras. Com isso, as
parcerias se tornariam "público-públicas",
adverte Tasso. Além disso, ele teme que o sistema de
gestão previsto para as PPPs, por um colegiado de ministros,
concentre o poder decisório na Casa Civil, em detrimento
da Fazenda. E propõe, em cada parceria, um piso (para
o aporte de recursos privados) e um teto (para o financiamento
público).
Como se vê por essa
amostra, seria temerário votar o projeto sem uma avaliação
circunstanciada da sua "letra miúda", com
o respaldo de audiências públicas na Comissão
de Assuntos Econômicos do Senado, como deseja a oposição.
Respondendo a acusação de que o governo teria
interesse em apressar uma decisão do Legislativo, pelos
presumíveis dividendos eleitorais que a aprovação
das PPPs traria para o PT, o líder do partido no Senado,
Aloizio Mercadante, garantiu que "jamais votaríamos
açodadamente e sem uma negociação transparente
uma matéria que estabelecerá um marco institucional
para 30, 40 anos". A oposição deveria tomar
pelo valor de face essas palavras e se dispor a um entendimento
despreconcebido sobre a matéria, em benefício
do País.
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