Publicação
de O Globo de 26 de maio 2005
PPPs, uma forma de aliar rentabilidade privada com rentabilidade social
Por
Carlos Langoni, Diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação
Getúlio Vargas (FGV)
O Seminário
O Desafio das Parcerias Público-Privadas , que será
realizado pela Fundação Getúlio Vargas
(FGV) em parceria com a Firjan, O Globo e o GLOBO ONLINE, tem
por objetivo discutir as Parcerias Público-Privadas (PPPs),
cuja importância pode ser sintetizada pela posição
que o Brasil ocupou numa recente pesquisa sobre a competitividade
mundial. O país permanece na faixa inferior de competitividade,
na 51ª posição, à frente apenas de
países como Rússia, México, Argentina e
Venezuela. Além disso, o Brasil está bem atrás
de outros países emergentes como Índia e China,
e mais distante ainda do Chile, estrela latino-americana que
continua avançando no ranking mundial e já está
na 19ª posição.
Quando tentamos
entender os motivos de a competitividade do Brasil ser tão
baixa verificamos que existem dois mundos no país. Um
é bastante eficiente, o do setor privado. Quando analisado
sobre a ótica do dinamismo empresarial, o Brasil sobe
de forma significativa no ranking da competitividade mundial.
Por outro lado, quando analisado sobre a eficiência governamental
e, principalmente, da infra-estrutura, somos empurrados para
baixo.
Discutir
PPP é discutir a infra-estrutura. Tivemos uma grande
mudança estrutural no início das privatizações,
por volta dos anos 90. Ela permitiu a modernização
de alguns segmentos da infra-estrutura, em especial das telecomunicações.
Mas nas outras áreas, como energia, rodovias, portos
e saneamento básico, continuamos com uma enorme defasagem.
Isso dificulta a transição brasileira para um
cenário de crescimento sustentável.
O Brasil
não pode mais imaginar que vai reduzir ou minimizar esse
hiato na infra-estrutura com investimentos exclusivamente públicos.
Temos uma restrição fiscal que vai nos acompanhar
ainda por um longo período até reduzirmos de forma
significativa a relação dívida pública/PIB.
Enquanto isso, vamos precisar acumular superávits primários
expressivos, que limitam muito a capacidade de investimento
direto do Estado. Hoje o governo tem que otimizar cada vez mais
seus investimentos, ou seja, ser extremamente eficiente e focar
naquilo que realmente é prioritário.
Portanto,
teremos que contar com um envolvimento cada vez maior do setor
privado. Para isso, precisamos continuar avançando na
construção de marcos regulatórios que sejam
coerentes e transparentes, viabilizando investimentos privados
de longo prazo. E podemos e devemos, sim, examinar outras formas
de viabilização de investimentos privados: as
Parcerias Público-Privadas.
As PPPs
representam mecanismos criativos de estabelecer uma convergência
entre rentabilidade social e rentabilidade privada. Elas permitem
que o setor privado atue em segmentos de elevada rentabilidade
social com um mínimo de retorno no investimento.
Falta agora
fazer as coisas acontecerem: estabelecer alguns detalhes importantes,
como, por exemplo, quem vai ser o gestor do Fundo Garantidor
das PPPs. Além disso, é imprescindível
estabelecer uma interface mais clara entre as prioridades do
governo e os marcos regulatórios específicos.
Cada projeto, dependendo de sua natureza, vai acontecer num
ambiente regulatório diferente e por isso é importante
que o governo construa essa interface da maneira mais eficiente
possível.
Por exemplo,
um projeto pode esbarrar em restrições ambientais
que podem inviabilizá-lo apesar de o governo elegê-lo
como prioritário. É importante que o Brasil consiga
construir aquilo que os empresários sonham tanto: uma
única janela de aprovação. Na hora que
entrar com PPP, já esteja automaticamente resolvida a
questão regulamentar, as licenças ambientais,
o financiamento, de modo que esses projetos possam ser implementados
de forma rápida.
É
essa a engenharia financeira institucional das PPPs que o Brasil
pretende inaugurar ainda este ano, se beneficiando inclusive
de experiências internacionais bem sucedidas. Existem
várias PPPs funcionando em quase todo o mundo, na África
do Sul, na Inglaterra, nos Estados Unidos e no Chile. Temos
que usar essa experiência internacional para tentar implementar
um modelo que seja objetivo e pragmático e que permita
ao país, nos próximos anos, mudar de forma drástica
essa infra-estrutura física ineficiente que explica nossa
baixa produtividade.
É
um grande desafio que vai exigir uma engenharia institucional
bastante criativa e, principalmente, uma grande competência
em identificar as prioridades e atrair o setor privado para
projetos que de fato façam sentido para a economia brasileira.