Estradas
federais põem em risco o "espetáculo do
crescimento". O "espetáculo do crescimento",
do qual somos concomitantemente atores e espectadores, é
o grande motor que nutre a esperança de vermos um Brasil
melhor e mais justo. No entanto, qualquer indivíduo
que, por prazer ou a trabalho, tenha recentemente se utilizado
de estradas federais é sabedor do risco potencial a
que esse "espetáculo" está sujeito.
Usando o exemplo dos transportes, o Brasil compara-se a organismo
cujos vasos encontram sérias dificuldades para dar
conta do fluxo interno.
Conhecedor
dessas restrições, o Poder Executivo tem demonstrado
grande interesse por alternativas que permitam a utilização
do capital privado para a satisfação das necessidades
de infra-estrutura, sem, no entanto, desvincular sua imagem
do processo. Entre essas alternativas, muito tem sido falado
nestes últimos meses a respeito das Parcerias Público-Privadas,
ou simplesmente PPP. Elas foram a solução que
diversos governos ao redor do mundo encontraram para otimizar
o desenvolvimento de novos investimentos em infra-estrutura.
Esses
governos, dando-se conta de que sua função precípua
é disponibilizar as condições básicas
para o crescimento e o desenvolvimento de suas economias (muitas
vezes confundidas com acumulação de ativos)
e de que o setor privado tem condições de produzir
melhor e mais barato, desenvolveram um modelo que combinava
a missão pública com a entrega privada.
A
participação privada, a partir de processos
competitivos, fez com que os custos fossem ainda mais reduzidos,
pela utilização de novas técnicas construtivas
ou simplesmente pela redução da taxa de retorno
requerida pelos investidores, reflexo direto da estabilidade
e da previsibilidade do próprio modelo.
No
caso do Brasil, as PPP são um assunto ao qual o governo
vem atribuindo grande importância estratégica,
mas cuja discussão tem forte conotação
política. Independentemente da importância absoluta
da matéria, de seu grau de urgência, da adequação
da proposta ora discutida ou qualquer outro pretexto utilizado
para exacerbar o debate ou simplesmente catalisar uma decisão,
o caminho para o sucesso de uma iniciativa de tais dimensões
passará, necessariamente, pela discussão franca,
pela negociação política aberta e construtiva
e, principalmente, pela comunhão absoluta de interesses.
Mesmo
que a discussão política da matéria seja
encarada mais positivamente, a aprovação de
uma lei específica para as PPP, como tão ansiosamente
esperada, não terá o condão de abrir
as comportas do investimento privado. Os mesmos entraves hoje
postos a outras iniciativas em infra-estrutura - energia,
estradas, saneamento etc. - no modelo mais simples e já
sedimentado de concessão serão também
enfrentados pelas PPP.
O
mais importante neste momento, porém, é que,
independentemente de todas as dificuldades, barreiras, atrasos
e restrições que enfrentaremos na implementação
desse modelo e de outros que surgirão - é válido
lembrar que nesse setor não há soluções
fáceis, rápidas e padronizadas -, não
percamos a esperança e a crença de que essa
é uma solução viável e que, como
já dizia o poeta do além-mar, "tudo acaba
bem; se não está bem, é porque ainda
não acabou!".
kicker:
As parcerias foram a solução de diversos países
para a aplicação em infra-estrutura
(Gazeta
Mercantil/Caderno A - Pág. 3)(Guilherme Ballvé
Alice - Diretor de project finance para a América Latina
do ABN AMRO Bank.)
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