Finalmente os sinais vitais
da economia brasileira dão sinal de melhora, com a
produção industrial crescendo vigorosamente,
o desemprego cedendo um pouco nas áreas metropolitanas
e a balança comercial superando as previsões
mais otimistas.
No entanto, já surgem
também indícios fortes de que dois fatores limitadores
podem frustrar uma retomada duradoura: a capacidade instalada
de diversas indústrias básicas está sendo
utilizada quase integralmente, muito acima dos níveis
de prudência; e a infra-estrutura pública está
à beira de um colapso: portos e aeroportos abarrotados,
estradas em processo acelerado de destruição,
prognósticos sérios de que estamos a caminho
de um novo apagão energético em dois ou três
anos.
Isso para não falar
nos investimentos sociais, em que a educação
e a saúde pública, a Previdência Social
e os serviços de segurança experimentam virtual
paralisia por falta de recursos mínimos. Nos dois casos,
é preciso investir urgentemente.
O caso do investimento privado
é mais simples, embora com juros altos e um retrospecto
de três anos de lucros medíocres as empresas
não encontrem muito fôlego para promover uma
ampliação significativa da capacidade instalada
a curto prazo. Mas o caso do investimento público é
simplesmente dramático.
Deixando de lado as dificuldades
políticas do governo junto ao Fundo Monetário
Internacional (FMI) para flexibilizar as restrições
quanto ao endividamento público e às exigências
de um colossal superávit para estabilizar (na melhor
das hipóteses) a dívida pública, há
duas realidades incontestáveis: primeira, a situação
da dívida interna é insustentável a médio
e longo prazos, pois simplesmente, apesar de drenar todos
os recursos públicos que poderiam ser utilizados na
ampliação e modernização das redes
infra-estruturais, o superávit primário do setor
público brasileiro (R$ 66 bilhões em 2003),
tão celebrado pelos governantes, não foi suficiente
sequer para pagar a metade dos juros no mesmo período
(R$ 145 bilhões).
Em outras palavras, o Brasil
se assemelha a uma família endividada que, agindo responsavelmente
para não sujar seu nome na praça, vende o carro,
tira os filhos do colégio particular, muda para um
apartamento alugado na periferia, faz meia-sola nos sapatos
e adia o tratamento dentário.
A vida da família é
miserabilizada e seu futuro comprometido, mas, apesar disso,
a dívida continua a crescer. Para não soar como
retórica vazia, um estudo recente do prof Judas Tadeu
Mendes demonstra que, nos últimos cinco anos, o setor
público brasileiro gastou R$ 511 bilhões para
servir a dívida, algo como 200 bilhões de dólares,
quase 40% do PIB brasileiro.
Os petistas no poder aparentemente
não estão impressionados com essa situação.
Com um apagão energético
à vista, ainda estão discutindo o marco referencial
dos investimentos no setor; as estradas estão destroçadas,
mas os investimentos federais necessários para recuperá-las
ainda estão ou no terreno das promessas ou nas etapas
preliminares. Quanto aos portos, a situação
não é melhor, enquanto a educação
e a saúde pública esperam melhores dias.
Mas muito pior, o governo
Lula não tem sido capaz de gastar nem os recursos disponíveis,
como comprova o fato de que o superávit primário
tem sido maior do que o exigido pelo FMI.
De novo, é como o pai
de família que paga aos credores mais do que estes
concordaram em receber, enquanto sua família passa
fome.
O governo federal está
colocando todas as suas esperanças na aprovação
da legislação sobre Parcerias Público-Privadas
(PPPs) como se fossem uma panacéia universal e imediata,
mas é onírico imaginar que investimentos de
longa maturação comecem a jorrar em um país
em que as regras contratuais têm sido freqüentemente
desobedecidas, enquanto os governantes atuais reinterpretam,
unilateralmente, os contratos assinados.
Ou o Estado recupera, rapidamente,
sua capacidade própria de investimento (e se mostra
mais eficaz em aplicar os recursos de que dispõe) ou
o apagão é inevitável.
Da mesma forma, ou o Estado
reestrutura o financiamento da dívida pública,
alongando agressivamente os prazos, reduzindo os juros e re-definindo
os papéis do sistema financeiro e dos investidores
institucionais no seu financiamento de longo prazo, ou nós
chegaremos rapidamente a um impasse.
É bom lembrar que,
quando esse tipo de impasse ocorre, uma das poucas alternativas
para sair dele é absolutamente desastrosa: é
o governo assistir, impassível e resignadamente, ao
recrudescimento da inflação que, se voltar aos
níveis que já experimentamos no passado, transformará
sua dívida em pó e com ela a credibilidade conquistada
a tão duras penas. O pobre pai de família terá
morrido na praia - depois de ter desgraçado a vida
de seus parentes durante mais de uma década - e ainda
ficará mal falado na praça.
kicker: Ou o Estado reestrutura
o financiamentoda dívida pública ou chegaremos
a um impasse
(Gazeta Mercantil/Caderno
A - Pág. 3)(Belmiro Valverde Jobim Castor - Ph.D. em
administração pública e autor do livro
"O Brasil não é para amadores".)
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