RENÉ
FERNANDES SCHOPPA
Engenheiro, autor do livro 150 anos do Trem no Brasil
Nunca
se falou tanto em PPP - Parceria Público-Privada. De
um lado, o Governo tem pressa na aprovação do
projeto que se encontra no Senado, já aprovado na Câmara
do Deputados, o qual define as regras do jogo. Segundo o Governo,
é o melhor instrumento capaz de proporcionar o crescimento
acelerado do País, mas a oposição, desconfia
tratar-se de uma forma de burlar a Lei de Responsabilidade
Fiscal que favorecerá empreiteiros e grandes investidores.
Sabe-se que para crescer de forma sustentada o Governo não
dispõe de todos os recursos necessários para
aplicar na infra-estrutura, principalmente nas áreas
de energia e transporte. No tocante ao transporte, é
mais fácil observar as deficiências existentes
nas rodovias, ferrovias e nos portos.
Ao
assumir o Governo o presidente Lula encontrou algumas rodovias
e todas as ferrovias foram concedidas à iniciativa
privada e, em que pesem alguns problemas, trata-se de uma
forma bem-sucedida de parceria entre o Estado e a iniciativa
privada. Mas na área rodoviária as concessões
não tiveram continuidade, tanto no plano federal como
nos estados, devido aos protestos dos usuários, principalmente
os caminhoneiros.
Nas
ferrovias as concessionárias passaram a explorar sistemas
já existentes, implantados com recursos do Estado,
cabendo-lhes apenas recuperar, manter e melhorar o patrimônio
público que receberam por concessão ou arrendamento.
Dificilmente os empresários irão bancar a construção
de novas linhas ou melhorar os traçados das linhas
existentes.
Mauá,
quando tomou a decisão de construir os primeiros 14,5
quilômetros de linhas férreas em solo brasileiro,
pretendia não somente ligar a capital do império
a Petrópolis, mas cortar Minas Gerais e chegar à
raiz da serra, hoje Vila de Inhomirim. Quem acabou realizando
o sonho de Mauá foi Cristiano Benedito Otoni, com o
apoio dado pelo imperador para a construção,
com recursos públicos, da estrada de ferro D. Pedro
II, que mais tarde passou a chamar- se E.F. Central do Brasil.
Na
década de 80, quando Olacyr de Moraes venceu a licitação
para construir a Ferronorte, que segundo seu projeto original
teria 5.228 quilômetros de linhas férreas nas
regiões centro-oeste e norte do País, não
tinha a menor idéia das dificuldades que iria encontrar.
Conseguiu
implantar, com recursos próprios e do BNDES, apenas
pouco mais de 200 km e com as obras paralisadas pediu apoio
ao governo federal. As obras só foram retomadas com
a entrada de dois novos sócios, os poderosos fundos
de pensão (Previ e Funcef) com os quais foi possível
levar os trilhos até Alto Taquari. A próxima
etapa da obra, para a qual ainda não há recursos
definidos, é chegar a Rondonópolis. Mas a situação
econômico-financeira da holding Brasil Ferrovias, que
controla a Ferronorte, Novoeste, Ferroban e Portofer está
complicada devido ao seu elevado endividamento. Em 2003 a
holding apresentou um patrimônio negativo de R$ 340
milhões, segundo o balanço. Por outro lado,
a empresa Constran, de propriedade de Olacyr de Moraes, executora
das obras da Ferronorte, enfrentou uma decisão judicial
determinando o arresto dos bens do empresário.
As
dificuldades enfrentadas pelo maior empresário do império
e do ex- rei da soja, são explicáveis. O investimento
em ferrovia envolve risco e o retorno, quando ocorre, só
se dá a longo prazo. Não é à toa
que em quase todo o mundo as ferrovias são de propriedade
do Estado. Até mesmo a exploração de
uma ferrovia construída com recursos a fundo perdido,
quando transporta carga de terceiros, é difícil
de se tornar rentável segundo os critérios da
contabilidade empresarial. Mas, quando se consideram os benefícios
para a economia nacional, a ferrovia é altamente viável
e geralmente indispensável. Os produtores de soja e
de aço estimam que até 2008 haverá mais
80 milhões de toneladas para serem transportadas e
sem ferrovia isso será impossível. Assim, é
compreensível a demora na aprovação do
projeto das PPPs na área da infra-estrutura. Recursos
privados são direcionados para onde há menor
risco, maior rentabilidade e menor prazo de retorno do capital.
A experiência tem mostrado que a alternância de
poder é um fator de risco. Veja-se o que ocorreu nas
concessões rodoviárias de alguns estados.
No
caso das ferrovias, grandes usuários estão investindo
em material rodante (vagões e até em locomotiva)
porque os operadores privados lhes garantem o atendimento
da demanda com tarifas conhecidas. Mas ninguém se propõe
a investir na infra-estrutura (linhas novas ou modernização
das existentes). A construção da Ferrovia Norte-
Sul, é um bom exemplo para mostrar que sem recursos
públicos a fundo perdido, o projeto não sairá
do papel.
Uma
empresa privada só irá investir na construção
de uma ferrovia quando ela fizer parte de um projeto maior.
A ferrovia do aço, ligando São Paulo a Belo
Horizonte, acabou ficando no papel. O que se construiu foi
apenas um trecho para atender a CSN e a exportação
de minério de ferro da MBR, e mesmo assim quem bancou
a obra foi o tesouro nacional,
Sem
suas ferrovias, que, diga-se de passagem, são referência
mundial, a Cia Vale do Rio Doce não seria a maior mineradora
do mundo. Por isso, foi muito importante a presença
da CRVD na exploração de outras ferrovias no
Brasil. Da mesma forma, dificilmente a iniciativa privada
irá investir na construção de metrôs
e sistemas de trens urbanos. O resto é mero bate-boca
de quem não sabe do que está falando.
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