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Publicação da Folha de São Paulo de 11 de novembro 2004

PPP: lições da experiência britânica

JOSÉ MAURICIO BUSTANI

Não é casual ou fortuita a posição que o tema das Parcerias Público-Privadas hoje ocupa no debate público brasileiro. Apresentando características institucionais inovadoras, esse instrumento oferece perspectivas para a oferta de bens e serviços de natureza pública que transcendem as limitações dos modelos da privatização e da concessão de serviços públicos.
A força das PPP reside na sinergia entre as vantagens comparativas dos setores público e privado, amalgamando em projetos específicos a capacidade estatal de regulação, fiscalização e mesmo financiamento e a eficiência privada nos planos gerencial, administrativo e financeiro. Trata-se de um jogo em que todos potencialmente ganham: o Estado consegue ampliar a oferta de serviços públicos e cumprir, portanto, sua obrigação social; o setor privado beneficia-se com a geração de oportunidades de negócios, muitos dos quais inviáveis sem as parcerias; e os usuários e contribuintes, maiores beneficiados, ganham com a maior quantidade, a melhor qualidade e os menores custos dos serviços.
A execução de projetos específicos requer, no entanto, o desenho de instrumentos legais, institucionais, contratuais e financeiros de graus variáveis de complexidade. Devo salientar que é particularmente feliz o momento em que as Parcerias Público-Privadas emergem como opção de política pública no Brasil. Já podemos contar com um valioso acervo de experiências, decorrente da implementação das PPP em outros países, a inspirar a construção do modelo mais próximo de nossas características institucionais e mais propício à satisfação de nossos objetivos.


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A força das Parcerias Público-Privadas reside na sinergia entre as vantagens comparativas dos setores público e privado
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Não posso deixar de me referir à experiência do Reino Unido, país a quem coube o pioneirismo na implementação dessas parcerias. A realização de parcerias no país tem como antecedente o processo de privatização durante os anos 80, com a transferência para o setor privado de atividades e serviços antes oferecidos pelo setor público. As PPP têm sido implementadas por meio de contratos de longo prazo, com vistas a atingir dois objetivos: a prestação de serviços públicos eficientes e a criação de novas opções para as finanças públicas, especialmente no que toca a projetos de infra-estrutura.
A execução das parcerias no Reino Unido intensificou-se a partir de 1997. No que tange ao valor dos projetos, foram assinados contratos no valor aproximado de 25 bilhões de libras desde o início dos anos 90, havendo cerca de dois terços desse valor sido contratados após 1997, especialmente nos setores de transporte, saúde e defesa. Com relação ao número de contratos, foram implementadas mais de 600 parcerias desde o início da década passada, 90% das quais a partir de 1997, com a multiplicação de parcerias nos níveis regional e local. A experiência britânica distingue-se pela predominância de projetos na área social, com a construção de hospitais e de grande número de escolas.
A dimensão e a importância do experimento britânico permitem uma avaliação equilibrada da potencialidade das PPP como instrumento de políticas públicas. Observo que é largamente majoritária, no Reino Unido, a avaliação favorável das Parcerias Público-Privadas. Embora o financiamento privado de atividades no Reino Unido seja mais caro do que o financiamento público, há evidências consistentes de que a transferência de riscos para as partes mais aptas a administrá-los, bem como as sinergias que surgem da concentração das operações de "design", construção e administração no setor privado, tem propiciado maior eficiência, em termos de qualidade e custos de longo prazo, em comparação com a oferta exclusivamente pública dos serviços.
Esse padrão de eficiência também é observado na manutenção dos padrões acordados nos contratos, uma vez que as PPP têm apresentado desempenho muito superior às atividades do setor público no que concerne ao respeito de limites orçamentários e de cronogramas de prestação de serviços.
A implementação das PPP no Reino Unido revela, ademais, uma clara compatibilidade entre as parcerias e a responsabilidade fiscal, sendo os dispêndios decorrentes das parcerias previstos nos orçamentos anuais dos departamentos responsáveis. Existe, ademais, um órgão central com a atribuição de monitorar os impactos orçamentários dos projetos, o que também contribui para que os compromissos sejam honrados. A própria contraposição entre a profundidade da experiência britânica com as PPP e a solidez dos indicadores fiscais do Reino Unido, país com a menor razão dívida pública/PIB no âmbito do G-7, revela a limitação dos argumentos que associam as parcerias à irresponsabilidade fiscal.
A observação interessada das parcerias no Reino Unido permite ainda apreender algumas "lições" que podem contribuir para reduzir percalços e favorecer seus resultados no Brasil. Entre tais lições, podem-se enumerar a necessidade de compromisso político inequívoco para a atração de investimentos, a importância do recurso a conhecimento especializado no desenho dos projetos, a necessidade de priorizar projetos com maior retorno socioeconômico, a importância de uma correta transferência de riscos para o setor privado, que estimule a eficiência do projeto e que, ao mesmo tempo, preserve sua rentabilidade. Torna-se imprescindível, ainda, a aprovação da legislação regulatória básica, atualmente em discussão no Congresso Nacional.
Creio que o aprendizado britânico pode inspirar nossas decisões. Decisões que nos permitam avançar com serenidade e equilíbrio, mas sobretudo com o sentido de decisão necessário ao aproveitamento de mais uma oportunidade que se apresenta para a satisfação dos objetivos mais fundamentais da sociedade brasileira.

José Mauricio de Figueiredo Bustani, 59, diplomata, é o embaixador do Brasil em Londres. Foi diretor-geral da Opaq (Organização para a Proibição de Armas Químicas), de 1997 a 2002.

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