Poucas vezes a história
econômica registrou um crescimento tão espetacular
como o do agronegócio brasileiro nos últimos
dois anos. Na safra de 1996/97, o Brasil produziu 78,9 milhões
de toneladas de grãos, resultado que, em 2003/2004,
chegou a 119 milhões de toneladas. Além do aumento
do emprego e da renda no campo, houve também um crescimento
das exportações. Dos US$ 90 bilhões de
vendas de nossos produtos no mercado internacional, previstos
para 2004, a balança do agronegócio vai contribuir
com pelo menos US$ 33 bilhões, segundo as projeções
mais conservadoras. Desde o ano passado, por exemplo, o Brasil
se consolidou na liderança das vendas mundiais das
carnes de boi e de frango.
Uma análise feita recentemente
pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), porém,
alerta que a safra brasileira já poderia estar registrando
números muito mais expressivos. Porém não
avançou tanto por conta de deficiências na infra-estrutura,
principalmente de logística.
Esses gargalos já ameaçam
até mesmo anular a expansão obtida nos últimos
dois anos, que foi alcançada, diga-se de passagem,
mesmo enfrentando inúmeras barreiras impostas aos nossos
produtos. Um bom termômetro disso está em um
estudo recente realizado pela Coordenação dos
Programas em Engenharia e Administração (Coppead),
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que mostra,
por exemplo, que 48 das 100 principais empresas exportadoras
apontam os problemas de infra-estrutura como os mais graves.
Na verdade, já se sabe que as dificuldades de transportes
em nossas rodovias e ferrovias não impedem a chegada
de produtos do campo apenas aos portos, mas também
aos centros processadores e até mesmo ao interior do
País.
Como bem lembrou, recentemente,
o ex-ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento,
Pratini de Moraes, isso se torna mais grave por ser o Brasil
um país distante de grandes mercados compradores como
Japão e China, e ainda em razão de alguns de
nossos grandes concorrentes do agronegócio, como EUA
e Austrália, além de estarem próximos
daqueles mercados, não terem os problemas de logística
que tanto nos afligem.
É claro que os problemas
em nossa infra-estrutura - que não incluem gargalos
apenas nos transportes - exigem investimentos que o governo
já deixou claro que não tem condições
de arcar sozinho. E é neste momento que aumenta a importância
do projeto de lei das Parcerias Público-Privadas (PPP),
ora em tramitação no Senado.
Em toda a área de infra-estrutura
calcula-se que sejam necessários investimentos de R$
40 bilhões por ano. Só no setor elétrico
a estimativa é de R$ 20 bilhões, dos quais o
governo, na melhor das hipóteses, poderá atingir
R$ 8 bilhões. Na área de transportes, a utilização
dos recursos da Contribuição de Intervenção
no Domínio Econômico (Cide) pode resolver o problema
das rodovias, mas não das ferrovias e dos portos.
Não é exagero
dizer que as PPP representam um avanço institucional
para melhorar as condições de infra-estrutura.
Trata-se de um caminho para que o governo, sem os recursos
financeiros necessários, firme contratos com parceiros
privados tendo por objetivo viabilizar a provisão de
serviços fundamentais para o País.
Difere claramente da privatização
ou da concessão pura e espera-se, como resultado, que
o retorno social exceda o retorno privado.
Mas, para que se alcance esse
objetivo respaldado pelos princípios basilares da legalidade
e da moralidade, é preciso introduzir na lei das PPP
a garantia de segurança aos investidores a partir de
pilares fundamentais: no primeiro caso, o respeito absoluto
à Lei de Responsabilidade Fiscal e à Lei de
Licitações; e, no segundo, que a avaliação
da demonstração das vantagens socioeconômicas
seja chancelada por uma instituição independente.
Com essas medidas, as Parcerias
Público-Privadas terão uma blindagem de qualidade
e propiciarão maior atração de investimentos,
de capital externo ou mesmo nacional. Seguramente haverá
também uma redução no custo do financiamento,
o que é essencial para a realização de
obras de infra-estrutura.
Sozinhas, as PPP não
são suficientes para solucionar os gargalos da infra-estrutura
do País, como alguns setores do governo vêm anunciando.
Mesmo porque seu sucesso dependerá principalmente da
capacidade do País em atrair investimentos.
Mas o Senado está construindo
um projeto avançado e blindado naqueles aspectos fundamentais
da responsabilidade fiscal, do não-dirigismo nas licitações
e da avaliação da qualidade de projetos. O momento
é de negociação e bom senso entre o governo
e o Congresso para tornarmos as PPP viáveis.
Até porque o agronegócio,
que vem sendo o verdadeiro motor da economia brasileira, aguarda
esse novo instrumento institucional com entusiasmo para afirmar
ainda mais a sua liderança mundial em tantos outros
produtos e em novos mercados.
kicker: As PPP sãoum
avanço institucional para melhorar as condições
de infra-estrutura
(Gazeta Mercantil/Caderno
A - Pág. 3)(Rodolpho Tourinho - Senador pelo PFL da
Bahia.)
VOLTAR