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Publicação da Folha de São Paulo de 08 de novembro 2004

Para o bem da nação

ALDO REBELO

O Brasil experimenta a consolidação de sua democracia. Quase 120 milhões de brasileiros puderam escolher livremente os 5.562 novos prefeitos e renovar as câmaras de vereadores de todo o país. A eleição municipal de 2004 confirmou a eficiência da Justiça Eleitoral e a vocação democrática do nosso povo.
Finalizada a eleição, não há mais nenhum turno em disputa. É hora de manter o espírito republicano e canalizar a energia deste momento democrático para o Congresso Nacional. Temos uma agenda social e econômica importantíssimas aguardando votação na Câmara e no Senado, que agora devem seguir seu curso normal, com o governo e a oposição, cada um a seu modo, desempenhando o papel que o eleitor lhes conferiu nas urnas.
Para o bem da sociedade e o interesse do país, é desaconselhável confundir, cruzar ou atrelar o resultado destas eleições com previsões para 2006. Seria incorreto antecipar para agora a discussão sobre a sucessão presidencial e a dos governos dos Estados, que ainda têm mais da metade de seus mandatos a cumprir. Para os novos prefeitos, com uma vasta agenda administrativa à frente, também não é saudável desviar energia dos desafios imediatos para uma distante disputa em 2006.
A divisão entre base governista e oposição do último pleito passa agora ao domínio dos analistas. Desde 1º de novembro o que temos são 5.562 novos prefeitos legitimamente eleitos. São eles o elo mais próximo entre a população e as políticas públicas dos governos das três esferas da Federação. Desmontado o palanque eleitoral, é hora de olhar adiante e voltar à normalidade política.


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Temos uma agenda social e econômica importantíssimas aguardando votação na Câmara e no Senado
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O governo federal, assim como deve ocorrer com o governo dos Estados, tratará todos os prefeitos da mesma forma, independente do partido pelo qual tenham sido eleitos. Mais que uma concepção, essa atitude mostra respeito pelo povo que os elegeu.
Com a retomada das votações no Legislativo, o governo trabalhará para aperfeiçoar o bom relacionamento com sua base de apoio e retomará o diálogo com a oposição congressual no esforço para aprovar projetos que ajudem a diminuir as desigualdades do país e a manter o crescimento da economia. Haverá empenho também em ajudar os partidos da base a buscar sua harmonia interna, sempre com o cuidado de respeitar a autonomia partidária, um dos maiores valores da democracia.
À sociedade, aos novos prefeitos, aos governadores e ao presidente da República interessa enfrentar os temas em pauta no Congresso, agenda tão consensual que nem esteve em questão na disputa encerrada no dia 31 último.
O desenvolvimento para o qual o país caminha passa pela aprovação conclusiva de projetos como as Parcerias Público-Privadas, a Lei de Falências, a Lei dos Consórcios Públicos, o novo marco das agências reguladoras, a reforma tributária e a biossegurança.
A necessidade das PPP já se tornou consenso na sociedade e o governo federal trabalha para finalizar um texto negociado com a oposição. A expectativa é que a apreciação da matéria seja concluída até o final deste ano no Senado. A aprovação do projeto nacional de PPP também é fundamental para dar segurança legal e acelerar os contratos de parceria a serem firmados de acordo com leis estaduais, já aprovadas em várias assembléias legislativas.
A nova Lei de Falências, em apreciação na Câmara, muda a visão do setor público em relação às empresas em dificuldade financeira. Antes de decretar a falência irreversível de uma companhia, o Estado legitima um espaço de negociação entre credores para tentar preservar a empresa e, em última instância, os empregos. A aprovação definitiva dessa lei é imprescindível para aumentar a oferta de crédito mais barato ao setor produtivo.
O projeto de consórcios públicos é daqueles que transcendem o governo e criam um novo modelo de ação para o Estado. Os consórcios serão entidades de direito público que reúnem municípios, governos estaduais e até a União para realizar ações conjuntas em diversas áreas de interesse público, como saúde, educação, transporte e meio ambiente. Ele também prima por respeitar o pacto federativo -porque um consórcio formado pela União e municípios só poderá ser levado à frente se o governo do Estado estiver na associação. O projeto pretende regulamentar e dar transparências aos consórcios públicos, cuja figura foi incluída na Constituição na gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Na categoria de projetos estruturantes da Federação está a conclusão da reforma tributária, que será apreciada pelos deputados. A proposta unifica as alíquotas do ICMS e acaba com a guerra fiscal, cria o Fundo de Desenvolvimento Regional e aumenta em um ponto percentual o Fundo de Participação dos Municípios, mudança aguardada por todos os prefeitos. O aumento é considerado essencial para regularizar o pagamento do 13º salário dos servidores municipais, mas só será aprovado no conjunto da reforma.
A jornada histórica do povo brasileiro pela democratização verdadeira e profunda, pelo pleno desenvolvimento social e pela afirmação da soberania nacional vive um momento de otimismo crítico que deve ser compreendido e apoiado por todas as lideranças da nação, independentemente de sua cor partidária.

Aldo Rebelo, 48, deputado licenciado pelo PC do B de São Paulo, é o ministro-chefe da Secretaria de Coordenação Política e Assuntos Institucionais. Foi líder do governo na Câmara dos Deputados (2003-04).

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