TENDÊNCIAS/DEBATES
O projeto das PPP é
adequado?
SIM
Uma parceria para crescer
mais
IDELI SALVATTI
A economia do Brasil está
reaquecida, após o apogeu de uma crise em 2002, quando
o Brasil correu o risco de viver o mesmo clima caótico
da Argentina. No ano passado, o crescimento ínfimo,
praticamente zero, do PIB, resultou do ajuste de contas públicas.
Mas, felizmente, o primeiro semestre de 2004 aponta uma contínua
retomada de investimentos e geração de emprego
e renda, com evolução positiva em vários
segmentos, inclusive os que não estão diretamente
vinculados ao setor de exportação.
O desafio, agora, é escoar a produção.
Sabe-se que o poder público, nas esferas municipal,
estadual e federal, não tem recursos suficientes para
atender à enorme demanda de infra-estrutura de transporte
e serviços. Também são evidentes os sinais
do estrangulamento dos terminais portuários, onde milhares
de contêineres estão parados. As estradas, em
condições precárias, ocasionam relevantes
prejuízos econômicos.
O atual governo anuncia alternativas para mudar esse cenário.
Foram lançados planos emergenciais para recuperar e
revitalizar estradas, portos e ferrovias. Além disso,
no Legislativo federal está em discussão o projeto
das Parcerias Público-Privadas (PPP). As PPP são
uma alternativa para acelerar o andamento de obras urgentes
e assim permitir que a produção não se
estanque, alcançando-se um crescimento superior aos
4% previstos oficialmente para 2005.
O país necessita dos grandes investimentos em infra-estrutura,
em um momento de favorável ambiente institucional,
com o aperfeiçoamento de marcos regulatórios,
novo modelo do setor elétrico em execução,
reforma tributária, Lei de Falências, Lei de
Inovação Tecnológica e reforma do Judiciário.
As PPP podem acelerar obras de infra-estrutura imprescindíveis
para concretizar uma curva ascendente de crescimento harmônico
da economia.
O governo federal, para se adaptar a esse novo ciclo de crescimento,
recupera o investimento público em estatais, contém
o custeio e aperfeiçoa critérios de superávit
primário. No período de 1990 a 1999, a taxa
de investimento no setor público em infra-estrutura
foi de 2,7% do PIB, enquanto o setor privado investiu 17,7%.
Duas décadas antes, o setor público investia
3,7% do PIB.
Com as PPP, o governo incentivará a participação
do setor privado nos projetos de infra-estrutura. Serão
realizadas obras com investimento privado, em menor prazo
e com maior eficiência. Isso não significa que
esses contratos, por meio de PPP, sejam firmados sem passar
por processos licitatórios. Aliás, qualquer
empreendimento deverá estar previsto pelo Plano Plurianual,
que estabelece as metas e ações do governo a
médio e longo prazos. Os recursos públicos para
contratos de PPP são analisados pelo Congresso durante
os debates sobre a Lei de Diretrizes Orçamentárias
e o Orçamento Geral da União. A Lei de Responsabilidade
Fiscal (LRF) é respeitada, logicamente, porque uma
lei complementar é hierarquicamente superior à
lei ordinária.
Outra vantagem das Parcerias Público-Privadas é
que a qualidade das realizações tende a ser
superior às privatizações adotadas na
era FHC. A remuneração dos parceiros está
diretamente vinculada ao padrão de desempenho e paga-se
apenas quando o serviço estiver disponibilizado. Está
prevista também a existência de um órgão
gestor, que será responsável por fiscalização
adicional aos controles já existentes em obras públicas.
Esse órgão terá a função
de avaliar os projetos e autorizar a licitação.
Será formado por representantes do Ministério
do Planejamento, do Ministério da Fazenda e da Casa
Civil.
As PPP, portanto, são um instrumento a mais para sustentar
o desenvolvimento econômico do Brasil e estão
na pauta do Senado. Se são necessários os debates
para aperfeiçoar o atual texto, vamos fazê-los.
Mas não se pode admitir que o foco dessa discussão
seja desvirtuado, quando senadores aproveitam o gancho para
discutir ou polemizar, por exemplo, através de emenda
ao projeto das PPP para ser revisto o endividamento de Estados
e municípios. As PPP não têm nada a ver
com endividamento dos entes da Federação.
A oposição vai ainda mais longe em sua velada
tentativa de obstruir a votação urgente de um
projeto de suma importância para o país. Sustentar
a tese de que o projeto deve ser votado só depois das
eleições não passa de uma manobra político-eleitoral.
Esse debate e essa votação não podem
ser protelados. Deveria pesar na consciência dos parlamentares
a necessidade de o Brasil investir na infra-estrutura, já
que a esperança do crescimento econômico já
virou realidade. Não podemos, porém, permitir
que o pesadelo de não conseguir escoar a produção
impeça uma taxa de crescimento ainda maior nos próximos
anos.
Ideli Salvatti, 52, professora
licenciada em física, senadora pelo PT-SC, é
líder do partido e do bloco de apoio ao governo no
Senado.
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