Congresso pode mudar processo orçamentário
Claudia
Safatle - Está em curso um movimento, no Congresso
Nacional, para fazer uma mudança radical no processo
orçamentário. Há propostas para elaboração
de uma nova lei (em substituição à lei
nº 4.320, de março de 1964); para a extinção
do Tribunal de Contas da União (TCU) e criação
de uma auditoria-geral eminentemente técnica; para
estipular prazo de vigência das receitas e despesas
vinculadas; para frear o poder discricionário do Executivo
de contingenciar o orçamento, entre diversas outras
questões polêmicas envolvendo, ainda, a própria
tramitação do projeto de lei no Congresso. O
que se pretende é ter o orçamento sancionado
o mais próximo possível do executado.
Nesta
semana deve ser instalada uma comissão mista composta
de 10 deputados e 5 senadores, para iniciar as discussões.
O deputado Paulo Bernardo (PT-PR), que presidiu a comissão
que elaborou o Orçamento Geral da União de 2005,
será o representante do PT na nova comissão
e preparou uma lista de problemas e sugestões, colhidas
ao longo de vários anos como membro da comissão.
No
governo, já se começa a falar na necessidade
de uma nova lei que, nos moldes da Lei de Responsabilidade
Fiscal, trate do gasto público. Seria a "Lei da
Qualidade do Gasto", sugere o secretário do Tesouro
Nacional, Joaquim Levy. A lei 4.320, que rege a elaboração
e controle dos orçamentos e balanços da União,
Estados e Municípios, data de 1964 e de lá para
cá muita coisa mudou. Naquela época, sequer
havia o conceito de responsabilidade fiscal. "Em algum
momento teremos que atualizá-la", avisa o secretário.
O
deputado propõe que o orçamento seja "impositivo"
e não apenas autorizativo, mas as despesas discricionárias
seriam de execução obrigatória "desde
que atingida a meta fiscal nominal prevista na Lei de Diretrizes
Orçamentárias, e ficando vedada a possibilidade
de elevação da meta sem que seja alterada a
LDO".
A
opção pelo conceito de meta nominal, e não
a primária, decorre do fato de que a primeira considera
a conta de juros da dívida pública. Paulo Bernardo
entende que o debate, no Congresso, deva ser mais centrado
nos dados nominais, para que a discussão possa ser
mais abrangente, envolvendo a taxa de juros e os demais fatores
que afetam o endividamento público.
Previsto
na LDO, até hoje não foi criado o Conselho de
Gestão Fiscal, nem definidos os limites de endividamento
da União, embora dois projetos de lei relativos a esses
temas tramitem no Congresso sem que o governo tenha manifestado
qualquer interesse de aprovação. O deputado
do PT propõe que a tramitação seja agilizada.
Hoje,
mais de 80% do orçamento é vinculado, ou seja,
são receitas que têm destinação
legal garantida para financiar despesas pré-determinadas,
como educação, ciência e tecnologia, entre
outras. Estas devem, segundo o deputado, ter prazo de vigência,
permitindo, assim, revisões de mérito. Acabar
com as vinculações, que engessam a gestão
orçamentária, é um velho desejo do governo.
A
extinção do TCU e sua substituição
por uma auditoria-geral seria a forma de redefinir o órgão
de controle externo, trocando-o por um sistema mais ágil
e de caráter técnico. Os ministros do TCU são
indicações políticas, o cargo é
vitalício e para levar adiante denúncias de
irregularidades no Orçamento, por exemplo, é
preciso que estas sejam submetida ao plenário do Tribunal.
O parlamentar sugere a criação de um novo órgão
de controle externo, que funcione como uma agência reguladora,
com escolhas técnicas para as diretorias e mandados
definidos.
Esses
são alguns dos aspectos listados por Paulo Bernardo.
Há diversos outros, mais ligados à eficiência
do orçamento e à tramitação do
projeto de lei orçamentária no Congresso. Por
exemplo, ele sugere acabar com as emendas de bancadas, aumentar
as individuais e manter as de comissões. Há
parlamentares, porém, que acham que a solução
é acabar com a Comissão Mista de Orçamento.
O projeto de lei tramitaria pelas comissões normais
da Casa.
Com
esse leque de propostas encaminhadas ao presidente do Senado,
Renan Calheiros (PMDB-AL), Paulo Bernardo espera que o debate,
na comissão mista, não se restrinja a mudanças
na Comissão Mista de Orçamento ou sua extinção,
mas que, de fato, "coloque a mão nos problemas".
Ele
acha que a discussão sobre a substituição
da lei nº 4.320 deveria começar nesta Legislatura,
para que uma nova legislação que balize o gasto
público já esteja em vigor em 2007. Já
há, inclusive, um projeto de lei complementar, de nº
135, na Comissão de Constituição e Justiça
da Câmara, com esse fim, desde 1996.
O
secretário do Tesouro Nacional tem uma idéia
diferente. Para se chegar à elaboração
de uma Lei da Qualidade do Gasto, ele entende que seria mais
produtivo testar, por uns três a quatro anos, o monitoramento
do programa-piloto recém aprovado pelo corpo técnico
do Fundo Monetário Internacional (FMI) e o que o governo
vai aprender com as Parcerias Público-Privadas (PPPs)
e com o trabalho que vem sendo feito na área das licitações.
Só depois, com mecanismos mais eficientes de implementação
e de monitoramento desses projetos - o que tem que ser montado
pelo governo - é que se chegaria a uma proposta de
reforma da lei, "com base em práticas já
testadas", explica Levy.
Mesmo
com concepções distintas - e esse é um
assunto controverso e polêmico por natureza - o fato
é que tanto no Congresso quanto no Executivo já
se discute a necessidade de reformulação do
processo orçamentário. Seria o início
do fim da prática que dura há décadas,
onde o governo finge que elabora e o Congresso finge que aprova
o orçamento da União. Na realidade, ele é
gerenciado na base do contingenciamento (ou corte de verbas)
que o Planejamento e a Fazenda fazem e o Tesouro Nacional
executa. Nesse meio, o Palácio do Planalto faz, da
liberação de verbas, o mecanismo para obtenção
de maioria no Congresso.