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Publicação do Valor Econômico
de 17 de março de 2006
Lei de licitações pede mudanças
Felipe Frisch De São Paulo
Uma pesquisa com cerca de 10 mil advogados, representantes de tribunais
de contas e do Ministério Público chegou a uma consistente
avaliação a respeito da atual Lei de Licitações,
a nº 8.666, de 1993. Que ela precisa de mudanças, quem
acompanha o setor já sabe e concorda. Mas, apesar das inúmeras
críticas que são feitas, apenas 16% acham que a lei
deveria ser totalmente revista, portanto reformulada. São
83% os que acreditam que são necessárias apenas mudanças
pontuais, como na ordem das fases, ou seja, dos envelopes a serem
abertos. Somente 1% dos entrevistados disseram que a lei atende
plenamente os interesses da administração pública.
Isso significaria aproximar de vez a lei das licitações
públicas do modelo que é adotado no pregão
eletrônico, está sendo utilizado para as Parcerias
Público-Privadas (PPPs) e foi incluído na Lei de Concessões
- a nº 8.987, de 1995 - pela ex-medida provisória, atual
Lei do Bem, a nº 11.196. Nesses casos, o envelope com proposta
de preço é visto antes da habilitação
(toda a documentação, como as certidões negativas
de débito), economizando tempo da licitação.
A inversão das fases foi apoiada por 48% dos entrevistados.
A generalização do modelo é criticada por alguns
advogados que acreditam que obras de engenharia complexas, por exemplo,
ficariam comprometidas se o preço fosse priorizado. "Não
vejo dificuldade em se inverter as fases mesmo em obras de engenharia.
É possível ser cauteloso do mesmo jeito, a diferença
é que talvez só seja necessário olhar uma habilitação,
pois o preço já terá sido visto", avalia
o advogado Edgar Guimarães, do Instituto Paranaense de Direito
Administrativo (IPDA) e um dos coordenadores da pesquisa. "Quer
coisa mais complexa do que concessão de serviço público?
E a Lei de Concessões hoje autoriza essa inversão",
diz.
Junto com os Institutos de Direito Administrativo do Rio Grande
do Sul (Idargs) e de Santa Catarina (Idasc) e a Bidding Consultoria
e Treinamentos, o IPDA promove o 2º Encontro Brasileiro sobre
Licitações Públicas a partir de domingo em
Florianópolis, quando serão apresentados os resultados
da pesquisa.
Outra crítica forte na qual resulta a pesquisa diz respeito
à falta de mecanismos de controle da administração
pública para garantir o cumprimento de um contrato de licitação:
69% dos participantes da pesquisa apóiam medidas nesse sentido.
No entendimento de Guimarães, a lei deveria estabelecer critérios
mais severos para empresas que participam de licitações,
ganham e, no momento de entregar, entregam produto de pior qualidade.
Hoje, segundo ele, quando acontece isso, é por falta de controle
da administração pública, mas as punições,
quando existem, são muito brandas. O advogado sugere que,
em certos casos, haja a devolução dos recursos. Para
situações menos graves, caberiam ainda multa, obrigação
de reparar ou mesmo recolher o produto para entregar o adequado,
quando for o caso de alguma compra.
Com a mesma taxa de aprovação (52%), ficaram as seguintes
propostas: tornar obrigatória a publicidade de todas as licitações
na internet nas páginas dos órgãos licitantes,
como ocorre hoje no pregão eletrônico; criação
da fase de saneamento, para correção de defeitos nos
documentos de habilitação; e definição
clara da competência da autoridade que assina os editais.
Outras sugestões dos entrevistados, em menor escala, foram
a extinção das modalidades tomada de preços
e convite (22%) e a exigência de um cadastro prévio
para as empresas participarem das licitações (18%).
Para os organizadores, a pesquisa mostra, entre outras coisas,
que os diversos anteprojetos de lei que tramitam no Congresso, ou
mesmo o da Casa Civil, não atendem aos anseios do setor,
já que propõem mudar toda a lei sem essas ou outras
alterações consistentes. Isso, ainda que pelo menos
20 tragam sugestão de substituir a lei inteira. Numa busca
simples no site da Câmara dos Deputados, foram encontrados
159 projetos de lei ou emendas que tratam da Lei de Licitações,
nove propostos apenas no ano passado. A intenção do
evento da próxima semana em Florianópolis é
formar uma comissão para levar um anteprojeto a Brasília.
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