É preciso investir, mas onde estão as leis?
Cynthia
Malta
A precária conservação das rodovias,
o encolhimento da malha ferroviária e a obsolescência
e falta de capacidade dos portos para escoar a produção
encontram um paralelo na vergonhosa situação
do saneamento básico no Brasil, onde 95% da população
recebe água encanada, mas unicamente 50,6% têm
o esgoto coletado e apenas 28,2% têm esse esgoto tratado.
O
governo federal alega falta de recursos para oferecer aos
cidadãos uma adequada infra-estrutura, cujas carências
não apenas encarecem a produção, como
ajudam a proliferar doenças na camada mais pobre da
população.
A
falta de água de boa qualidade e de rede de esgoto
faz com que, a cada meia hora, morram 180 crianças
nos países em desenvolvimento. Cinqüenta delas
morrem na América Latina, nas contas do Banco Interamericano
de Desenvolvimento (BID). O quadro é sério.
O
governo já percebeu a necessidade do investimento privado.
Mas como as empresas privadas - nacionais ou estrangeiras
- podem preparar-se adequadamente para investir na ampliação
e melhoria da infra-estrutura se ainda não há
regras para isso?
Há
15 anos, segundo o Ministério das Cidades, discute-se
no país uma nova legislação para os serviços
de saneamento básico. O governo FHC foi incapaz de
resolver o impasse criado na discussão sobre a titularidade
dos serviços, se deveria ficar com os Estados ou com
os municípios. E o governo Lula, já na segunda
metade de seu mandato, não enviou ao Congresso o projeto
de lei que regulamentará os futuros investimentos nessa
área. Enquanto isso, o capital privado nacional senta
e espera. E o estrangeiro que se cansou de esperar, arruma
a mala e vai embora. É o que já fizeram a francesa
Vivendi e a britânica Thames Water, para citar apenas
empresas que operam em saneamento básico.
Há
ainda companhias, claro, que continuam trabalhando no país
e estudam investir em água e esgoto - quando houver
condições. Uma delas é a espanhola Abengoa
Brasil, que já aplicou R$ 500 milhões em linhas
de transmissão de energia em território brasileiro
desde que chegou, há cinco anos. Seu presidente, Antonio
Frías Pecellín, perguntou, na semana passada,
ao secretário de Assuntos Internacionais do Ministério
do Planejamento, José Carlos Miranda, quando o país
terá uma nova lei de concessão para saneamento
básico.
O
secretário, que havia sido convidado para falar sobre
os planos do governo na área de infra-estrutura para
uma platéia de executivos espanhóis, respirou
fundo e respondeu que o projeto de lei deverá ser enviado
ao Congresso pelo Ministério das Cidades neste mês
de março. E, otimista, previu que no segundo semestre
o projeto poderia ser aprovado. A titularidade ou o poder
de concessão do serviço poderá ser exercido
por Estados, municípios ou consórcios de municípios,
explicou Miranda.
No
início dos anos 90, quando o Brasil iniciava o debate
sobre a nova legislação nessa área, o
Chile mostrava uma situação precária
em saneamento, com redes de água e esgoto praticamente
inexistentes. Hoje o Chile, que escolheu alavancar investimentos
nessa área com recursos privados, é apontado
pelo BID como um caso de sucesso. No Brasil, a proposta da
nova lei ainda nem chegou ao Congresso.
Não há regras para saneamento nem para PPP
O
Chile abastece 99% da população com água
potável, cerca de 90% com esgoto, sendo que 60% desse
volume é tratado para não poluir o meio ambiente.
O modelo tem por base investimentos privados, caminho que
o governo brasileiro dá sinais de querer trilhar. Mas
mais importante do que ter definido sua política é
o fato de o Chile manter o modelo, já há mais
de 10 anos.
O
quadro regulatório no Brasil também está
atrasado nas demais áreas da infra-estrutura. A lei
11.079, que estabelece normas para contratar parcerias público-privadas
(PPP), e que o governo quer aplicar para a construção
ou modernização de rodovias, ferrovias e portos,
já recebeu a sanção da Presidência
da República. Mas falta a regulamentação.
Na
mesma reunião com Miranda, o executivo Carlos Eduardo
Valente, da Cymi do Brasil, que também opera em transmissão
de energia, perguntou quais projetos de PPPs seriam escolhidos
pelo governo numa fase inicial. O governo quer lançar
dois projetos em 2005 - uma rodovia e uma ferrovia, disse
o secretário. Até o último trimestre
será anunciada a PPP para completar a construção
da Norte-Sul. Mas a rodovia não está definida.
Alguns
especialistas estimam que os primeiros contratos possam ser
assinados no início de 2006. Esse quadro, se lembrarmos
que a malha ferroviária encolheu mais de 10 mil km
nos últimos 50 anos e que há 50 mil km de rodovias
a serem restauradas e duplicadas no país, não
é nada animador.
A
falta de regulamentação das PPPs preocupa potenciais
investidores. A Confederação Espanhola de Organizações
Empresariais , entidade que reúne cerca de 1 milhão
de empresas públicas e privadas, acompanha de perto
o assunto e declarou sua preocupação ao secretário.
" Estamos preocupados com a estrutura normativa do regime
de concessão no Brasil. Não entrará capital
estrangeiro neste país se o marco regulatório
não for atrativo para as empresas " , disse José
García Morales, diretor da CEOE.
O
secretário ainda ouviu mais uma pergunta de uma executiva
espanhola. Ela quis saber quando será aprovado o Plano
Diretor de Portos. Miranda, já constrangido, respondeu
que não tinha previsão pois o assunto dependia
do Congresso.
A
Espanha é o segundo maior investidor estrangeiro no
país, só perdendo para os Estados Unidos. Tem
US$ 27 bilhões aplicados em diversos setores, nas contas
do governo de Madri. Pode depreender-se, do evento na semana
passada em São Paulo - ao qual compareceram 70 empresas
espanholas, representantes do governo espanhol e o príncipe
das Astúrias, herdeiro do trono -- que a Espanha mantém
o interesse em ampliar negócios na área de infra-estrutura
no Brasil. Só falta o governo e os congressistas brasileiros
aprovarem a legislação pertinente para que os
investimentos possam deslanchar.