Publicação da Folha de São Paulo de 03 de
fevereiro de 2004
"Não tem desaforo". Na linguagem franca
e contundente que é sua marca, o embaixador Adhemar
Bahadian, co-presidente, pelo Brasil, das negociações
da Área de Livre Comércio das Américas,
define assim o conjunto de propostas que um grupo de
países liderados pelos Estados Unidos apresentaram
ontem para as discussões que tentarão
definir de uma vez o formato da Alca.
De fato, o texto, assinado também por Canadá,
Chile, México e Costa Rica, entre outros países,
é mais suave do que o documento original do G3
(Canadá, Chile e México), aparentemente
por pressão norte-americana.
Demonstração definitiva de que a proposta
não tem "desaforos": dos 32 itens do
documento, em 22 as anotações feitas à
margem do texto pela delegação brasileira
apontam "OK", ou seja, zero de discordância.
Mas há, sim, sutilezas que podem complicar a
reunião do CNC (Comitê de Negociações
Comerciais), principal organismo técnico da Alca,
que se inaugura oficialmente hoje na cidade mexicana
de Puebla.
Primeiro problema, conforme a Folha já havia
apontado em sua edição de ontem: o texto
dos Estados Unidos e demais parceiros mantém,
embora com linguagem menos direta, o veto à possibilidade
de que o Brasil pegue carona em acordos mais ambiciosos
de liberalização comercial nas Américas.
O texto original do G3 dizia que "os resultados
nas negociações de acesso a mercado do
nível plurilateral somente serão estendidos
aos países participantes do nível plurilateral".
Nível plurilateral é o jargão
para um dos dois trilhos da chamada Alca "light",
que o Brasil conseguiu obter na Conferência Ministerial
de Miami, em novembro. O primeiro trilho é o
de "um conjunto comum de direitos e obrigações",
obrigatório para todos os 34 participantes.
O segundo trilho são justamente os acordos plurilaterais,
mais ambiciosos, mas dos quais participa apenas quem
quiser.
A nova linguagem do grupo formado pelos EUA e parceiros
diz apenas que "a cláusula de Nação
Mais Favorecida deveria aplicar-se (...) tendo em conta
os compromissos e as obrigações dos diferentes
países".
A cláusula, regra de ouro no comércio
internacional, diz que, se um país der vantagem
a outro em negociações regionais como
as da Alca, por exemplo, terá que estendê-la
a todos os demais.
Na prática, significa que quem não paga
(o preço da liberalização) não
come (os frutos dela em outros países).
"Estabelecer que, se um país não
quiser fazer tal coisa, será punido em outra
área é como criar a roda quadrada",
reage o embaixador Bahadian.
Segundo problema: o texto dos norte-americanos e dos
outros países diz que, "conforme se chegue
a um acordo, poderão ser incluídas disposições
adicionais ao conjunto comum de direitos e obrigações".
É outro parágrafo vetado pelo Brasil,
por motivos óbvios: abre espaço para engordar
substancialmente a Alca "light" saída
de Miami.
Por fim, no capítulo específico de serviços,
o documento norte-americano (e de sócios) cobra
"compromissos adicionais em setores específicos,
conforme se chegue a acordo".
É o que a delegação brasileira
batiza de Gats-plus, em alusão ao Acordo Global
sobre Comércio de Serviços, já
vigente no âmbito da Organização
Mundial do Comércio, e é o limite que
o Brasil está disposto a aceitar.
Há outras divergências menores: o Brasil
acha pouco, por exemplo, que, em matéria de derrubada
de tarifas, se diga que "todo o universo tarifário
está sujeito a negociações".
Prefere que se fale em "eliminação"
de tarifas, ainda que em prazo escalonado (imediato,
cinco anos, dez anos e mais de dez anos).
O Itamaraty também acha fraco o trecho da proposta
dos EUA e dos parceiros sobre agricultura e veta a idéia
de "estabelecer uma salvaguarda agrícola
especial".
Uma salvaguarda desse gênero permitiria, por
exemplo, que algum sócio da Alca barrasse exportações
brasileiras de soja se elas aumentassem por conta de
uma eventual desvalorização da moeda.
De modo geral, no entanto, o documento deixa pouquíssima
margem para confrontos, na avaliação preliminar
da delegação brasileira.
Mesmo assim, Antônio Simões, com seis
anos de Alca às costas, prefere a cautela: "Uma
coisa é o que está nos papéis,
outra é a discussão lá dentro",
diz, apontando para o Centro de Convenções
de Puebla que será o QG da reunião do
CNC.
Mas o embaixador Bahadian é mais otimista: "Acho
que será uma negociação mais fácil
do que a imprensa supõe", diz.
Sua tese é a de que os Estados Unidos finalmente
se deram conta de que a proposta brasileira de uma Alca
light, com dois níveis de obrigações,
não é uma tática negociadora, mas
uma posição indestrutível de governo.